A pecuária da Amazônia tem espaço para crescer fora do eixo China–Estados Unidos–União Europeia, mas o gargalo não é de produção: é sanitário. É o que apontam especialistas ouvidos pelo ((o))eco em reportagem publicada nesta quarta-feira (30).
Com a cota de importação da China esgotada neste ano e o mercado americano instável desde o tarifaço, o Governo Federal se aproximou de compradores como Japão e Coreia do Sul — países que exigem uma credibilidade que o gado brasileiro ainda não construiu.
Aftosa resolvida, identificação individual pendente
Japão e Coreia do Sul cobram há anos que o país exportador seja livre de febre aftosa sem vacinação, condição que o Brasil alcançou apenas recentemente. Pesa a favor de concorrentes como Estados Unidos e Austrália o histórico de adequação às burocracias asiáticas — e, no caso coreano, um acordo de livre comércio com os americanos que melhora o preço final.
Camila Trigueiro, pesquisadora do Imazon, observa que territórios recém-certificados costumam partir imediatamente para a identificação individual dos animais, porque isso permite rastrear um surto em poucas horas. O Brasil não chegou lá. O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), lançado em julho de 2025, prevê que até 2029 todos os animais submetidos a manejo sanitário — como a vacinação contra brucelose — estejam cadastrados. No Pará, o Programa Pecuária Sustentável identificou menos de 2% do rebanho em dois anos e empurrou o prazo para 2030.
Parte do atraso na rastreabilidade individual é estrutural: um estudo do WRI Brasil mostrou que os sistemas brasileiros operam desconectados, com falhas justamente no controle dos fornecedores indiretos.
A instabilidade do comprador americano também não é nova: em julho, os EUA isentaram a carne bovina brasileira de tarifa, mas mantiveram o desmatamento como argumento de pressão e passaram a cobrar rastreabilidade total do rebanho.
MENA cresce sem cobrar sustentabilidade
O Oriente Médio e o Norte da África (bloco MENA) já são um destino de US$ 1,79 bilhão para a carne brasileira, segundo relatório do Radar Verde de 2025 — em parte absorvendo volume que antes ia para a China. Na Amazônia Legal, 72 frigoríficos de 32 empresas estão autorizados a exportar para os principais países do bloco, somando 58% da capacidade regional de abate. Se esse mercado passasse a exigir controle rigoroso dos fornecedores diretos, apenas 54% das plantas atenderiam; nenhuma comprova controle auditado sobre fornecedores indiretos.
Nos mercados exigentes, o retrato é pior
A União Europeia pede due diligence e geolocalização de todas as propriedades por onde o animal passou, enquanto o SISBOV cobre somente os 90 dias anteriores ao abate. Dos 15 frigoríficos amazônicos habilitados para a Europa, todos em Mato Grosso, 87% tinham baixo controle da cadeia e 13%, controle muito baixo. Outros 15 exportam para os EUA: embora 93% assinem o Termo de Ajustamento de Conduta com o Ministério Público Federal, nenhum respondeu ao questionário do Radar Verde, e 100% ficaram na faixa de baixa ou muito baixa efetividade contra o desmatamento.
Para Alexandre Mansur, diretor de projetos do Mundo Que Queremos, governos e setor deveriam tratar controle de cadeia como vantagem competitiva: “investir no controle da pecuária é propor medidas que têm benefícios sociais e econômicos imediatos”. A China já deu um sinal nessa direção em maio, quando importadores chineses se comprometeram a pagar até 10% a mais por carne certificada e livre de desmatamento. Trigueiro avalia que só nos próximos anos ficará claro se o Brasil vai se adequar aos compradores mais rigorosos ou buscar mercados sem essas exigências — que, em geral, também compram menos.