Um estudo do WRI Brasil mostra que o Brasil já reúne sistemas sofisticados para rastrear soja e carne bovina, mas eles operam de forma desconectada, com critérios diferentes e falhas na cobertura dos fornecedores indiretos — o elo mais frágil da cadeia produtiva.
A pesquisa analisou 21 iniciativas usadas na Amazônia e no Cerrado, sendo dez voltadas à soja e 11 à pecuária, e defende a criação de um protocolo nacional que unifique as bases de dados públicas e privadas do país.
Falta de conexão entre os sistemas
O levantamento do WRI Brasil mapeou 21 iniciativas usadas no monitoramento das cadeias de soja e carne bovina na Amazônia e no Cerrado — dez voltadas à soja e 11 à pecuária. Segundo a pesquisa, o país já dispõe de protocolos de monitoramento, acordos voluntários, plataformas públicas, programas de certificação e sistemas de rastreabilidade, mas cada um usa critérios próprios para definir o que conta como conformidade.
“O Brasil possui um amplo ecossistema de sistemas e iniciativas. Não falta informação, mas existe uma diferença entre elas que dificulta a aplicação consistente”, afirma Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil. Enquanto algumas iniciativas bloqueiam fornecedores ligados ao desmatamento, outras apenas emitem alertas, sem prever punição.
O ponto cego dos fornecedores indiretos
A cobertura dos fornecedores indiretos aparece como a maior lacuna. Na pecuária, isso significa rastrear não só a propriedade onde o boi é abatido, mas todas as fazendas por onde ele passou antes disso. Na soja, o desafio é seguir o grão até a fazenda de origem mesmo quando ele passa por intermediários. É justamente nesse ponto que tecnologias como o chip implantado em bovinos ainda esbarram: rastreiam o animal desde o nascimento, mas sem diálogo com bases como o CAR e o DETER, o rastro se perde justamente nos elos intermediários da cadeia.
Para reverter esse cenário, o WRI Brasil defende um protocolo nacional que padronize critérios e conecte as bases de dados. Entre as experiências já avançadas, o estudo cita o Protocolo de Monitoramento de Fornecedores de Gado na Amazônia (PMFGA), o Protocolo Verde dos Grãos e o Selo Verde do Pará, que cruza CAR, alertas de desmatamento e o histórico de Guias de Trânsito Animal.
Rastreabilidade como estratégia, não só exigência
Para Mariana Oliveira, encarar a rastreabilidade apenas como resposta a exigências externas é um erro de perspectiva. “A grande questão para o nosso país é pensar em como a gente não olha para a rastreabilidade simplesmente como uma exigência do mercado, mas, sim, num projeto de desenvolvimento do Brasil”, diz. Na avaliação dela, sistemas integrados também podem direcionar crédito e assistência técnica para agricultura familiar, cooperativas e produtores que precisam recuperar áreas degradadas.
A pressão por comprovação de origem já produz efeitos concretos no comércio exterior. Em julho, os Estados Unidos isentaram a carne brasileira de tarifas, mas mantiveram o desmatamento na Amazônia como argumento de investigação sobre os frigoríficos exportadores. Em sentido oposto, a China, maior compradora da carne brasileira, passou a pagar até 10% a mais por produtos certificados livres de desmatamento — sinal de que a rastreabilidade pode virar vantagem comercial, não apenas custo.
O tema ganha peso pelo tamanho das duas cadeias: soja e carne bovina responderam por cerca de 60% do valor das exportações agropecuárias brasileiras em 2024, com o Brasil na posição de maior exportador mundial das duas commodities. A nova legislação antidesmatamento da União Europeia, que exige comprovação de origem livre de desmatamento após dezembro de 2020 para sete commodities, reforça a urgência de um sistema nacional único.