Meio ambiente

Agricultura familiar sustenta rastreabilidade do gado no Pará após adiamento

Pequenos criadores usam o programa estadual para melhorar manejo e renda — e o efeito colateral é mais floresta em pé
Gado nelore em pasto ao entardecer, floresta amazônica ao fundo, simbolizando a rastreabilidade do gado no Pará

Enquanto o governo do Pará desacelerou a implantação do programa Pecuária Sustentável depois de empurrar a rastreabilidade individual obrigatória para 2030, quem está segurando a iniciativa de pé é o menor elo da cadeia do gado: a agricultura familiar.

Para esses produtores, o brinco eletrônico virou porta de entrada para capacitação em manejo, gestão e divisão de pasto. O alvo imediato é a renda. O efeito colateral, apontam técnicos ouvidos pelo ((o))eco, tende a ser menos desmatamento e menos metano.

Produtividade maior, pressão menor sobre a floresta

“O aumento da produtividade da pecuária está diretamente relacionado a uma redução de emissões”, resume Bruno Vello, coordenador de Políticas Públicas do Imaflora e integrante do conselho gestor do programa. Abate mais precoce significa boi emitindo metano por menos tempo.

Há ainda o efeito sobre a terra: pasto bem cuidado não degrada, e pasto que não degrada não empurra a cerca para dentro da mata. Nas oficinas, a lição mais repetida é a rotação de piquetes, que permite sair de uma ou duas cabeças por hectare para até oito, segundo João de Jesus Souza, da Fetagri.

O fôlego extra apareceu depois que o governo estadual prorrogou para dezembro de 2030 a meta de identificação individual do rebanho, reconhecendo que o prazo anterior era inviável. A escala ajuda a entender o recuo: os 403 agentes credenciados pela Adepará precisariam brincar 64 animais por dia útil cada um para cumprir a nova data.

Por que o pequeno pesa tanto no Pará

Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, o número de propriedades familiares caiu 11% no Brasil e 1,5% na Amazônia Legal entre 2006 e 2017 — mas cresceu 22% no Pará, passando de 195.985 para 239.737. É nessa faixa, também, que estão os fornecedores indiretos de gado, aqueles que permanecem invisíveis a mecanismos como o TAC da Carne.

No painel público do programa, 66% das mais de duas mil propriedades que já começaram a identificar animais têm menos de 100 cabeças. “O tamanho do rebanho não define a agricultura familiar”, pondera Lucimar Souza, do Ipam, “mas, na Amazônia, a média é de menos de um animal por hectare”.

Cheque pecuária, brinco grátis e a dúvida da continuidade

O incentivo mais citado é o cheque pecuária: R$ 20 mil em duas parcelas, exclusivos para agricultores familiares. O dinheiro paga cerca para isolar área desmatada, projeto de reflorestamento ou reforma de pasto — e a maior parte do repasse só sai se o produtor passar pelos treinamentos.

A Secretaria estadual de Meio Ambiente informa investimento de R$ 34,952 milhões na medida, mas não disse quanto já chegou efetivamente às mãos dos produtores. Há também gratuidade da brincagem para quem tem até 100 cabeças, economia estimada pelo Imaflora em R$ 7 mil por propriedade.

Em alcance: 80 dos 144 municípios paraenses receberam oficinas, mais de três mil agricultores passaram por capacitação e os três Núcleos de Atendimento ao Produtor somaram 1.635 atendimentos até agosto, com 602 serviços de regularização ambiental.

O gargalo de 2030

A fragilidade está na continuidade. O Pará ainda não explicou como vai sustentar a leitura contínua dos chips no longo prazo, desafio que recai justamente sobre o suporte ao pequeno produtor. A aposta para retomar o ritmo é amarrar, a partir de janeiro de 2027, o brinco eletrônico à vacinação contra brucelose, substituindo a marcação a ferro quente.

O espaço para crescer é largo: apenas 13% dos animais já identificados estão em propriedades com menos de 100 cabeças, embora 32% do rebanho paraense estivesse em estabelecimentos familiares em 2017.