O Pará tem até 31 de dezembro de 2030 para identificar 25,6 milhões de bovinos e bubalinos, mas o programa de rastreabilidade animal avança devagar.
Em dois anos, apenas 423.659 cabeças receberam brincos eletrônicos — menos de 2% do rebanho estadual, o segundo maior do país.
Para cumprir a meta, os 403 agentes credenciados pela Adepará precisariam identificar 64 animais por dia útil, cada um, até o fim do prazo.
Uma conta que expõe o gargalo
A identificação é feita por Operadores de Rastreabilidade (OPRs), agentes credenciados pela Adepará — produtores rurais, agricultores familiares, técnicos ou veterinários — responsáveis por instalar os brincos visual e eletrônico, registrar os dados do animal e alimentar o sistema oficial.
Com 403 agentes ativos, cada um precisaria registrar, em média, 63,5 mil animais ao longo dos quatro anos restantes — o equivalente a 320 cabeças por semana ou cerca de 1,3 mil por mês, considerando uma jornada de 40 horas semanais e 250 dias úteis por ano.
Segundo a gerente de cadastro e rastreabilidade da Adepará, Barbra Lopes, a agência segue capacitando novos profissionais e ampliando a rede. Caso o número de agentes dobre para cerca de 800, a média cairia para 32 animais por dia útil por agente. O programa já chegou a esse ponto com histórico de atraso: em agosto, o Pará prorrogou o prazo original de 2025 para 2030 após identificar menos de 2% do rebanho.
O trabalho, porém, não depende só dos OPRs. A Adepará soma 1.028 colaboradores, dos quais 756 são servidores efetivos — entre veterinários, técnicos agrícolas e fiscais —, mas essa equipe atende a todas as atribuições da agência, não exclusivamente ao programa de rastreabilidade bovina.
Meta ainda tem zona cinzenta
Não está claro se a universalização até 2030 abrange todo o rebanho ou apenas os animais movimentados entre propriedades. Em 2025, cerca de 20,2 milhões de cabeças foram transportadas no estado — se o prazo valer só para o gado em trânsito, cada agente teria de identificar cerca de 50 animais por dia útil.
Lopes afirma que a Adepará prepara uma nova portaria com detalhes da metodologia para melhorar os resultados até 2030. A publicação, prevista para agosto, ainda não saiu.
O programa integra, desde junho de 2025, o Programa Pecuária Sustentável do Pará. Jamir Macedo, presidente do conselho gestor da iniciativa, pondera que o número de agentes não é determinante: “Não obrigatoriamente o produtor rural vai precisar contratar um agente. Ele mesmo, o vaqueiro dele, ou ele mesmo pode ser o próprio agente de identificação, operador de identificação, o OPR, da propriedade dele.” Segundo Macedo, ter mais OPRs amplia a rede e cria renda extra para produtores, mas contratá-los não é obrigatório.
A Adepará foi procurada sobre a capacidade operacional para cumprir as metas até 2030, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.