O Governo do Pará prorrogou para dezembro de 2030 a meta de rastreabilidade do gado bovino e bubalino em trânsito no estado, cinco anos além do prazo original, anunciado em 2023 durante a COP28, em Dubai.
Passados quase três anos do anúncio e dois desde a primeira microchipagem, menos de 2% dos cerca de 26 milhões de cabeças de gado do Pará foram identificadas, segundo dados oficiais da Agência de Defesa do Pará (Adepará).
A meta original previa que todos os bois e búfalos em trânsito estivessem identificados até dezembro de 2025 — prazo que o próprio governo reconhece hoje como inviável diante do tamanho do rebanho estadual.
Meta ambiciosa esbarrou na dimensão do rebanho
A microchipagem, apelidada de “brincagem”, consiste na aplicação de dois brincos em cada animal: um visual, com numeração legível a olho nu, e outro com tecnologia RFID, que armazena dados como sexo, idade e raça no sistema da Adepará. A ferramenta reforça o controle sanitário do rebanho e ajuda a comprovar a origem dos animais, dificultando a entrada de gado criado em áreas desmatadas na cadeia produtiva — tema que ganhou vitrine internacional durante a COP30, quando o chip bovino paraense foi apresentado como símbolo de uma pecuária amazônica mais transparente.
A primeira brincagem ocorreu em 11 de setembro de 2024. Desde então, cerca de 423 mil animais foram identificados em 97 dos 144 municípios paraenses, a maioria em propriedades de médio e grande porte. Para a gerente de cadastro e rastreabilidade da Adepará, Barbra Lopes, o prazo original “era muito curto” diante do desafio: o Pará é o segundo maior estado do país, com cerca de 26 milhões de bovinos e o maior rebanho de búfalos do Brasil, com 683 mil cabeças.
Programa nacional joga prazo para 2029 e 2032
A prorrogação também acompanha o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), publicado em julho de 2025, que estabelece 2029 como prazo para identificar animais submetidos a manejo sanitário, como a vacinação contra brucelose, e 2032 para que todo o rebanho do país esteja identificado antes de qualquer movimentação. Lopes diz que o estado vai aproveitar as campanhas de vacinação para colocar brincos em cerca de três milhões de bezerras nascidas no Pará nesse período, o equivalente a 11,5% do rebanho total.
Pesquisadores e produtores veem “esfriamento” após a COP30
Para a pesquisadora do Imazon Camila Trigueiro, os prazos do PNIB acabaram esvaziando a urgência do programa paraense. Ela também critica o fato de o estado não ter aproveitado o reconhecimento como zona livre de febre aftosa sem vacinação, em maio de 2025, para acelerar a identificação durante as campanhas de imunização do rebanho jovem. A discussão sobre rastreabilidade individual, lembra, já dura pelo menos 24 anos desde a criação do Sisbov — cenário parecido ao identificado por um levantamento do WRI Brasil que mapeou 21 iniciativas de rastreabilidade no país e encontrou sistemas desconectados entre si.
Já o pecuarista Mauro Lúcio afirma que a forma como a prorrogação foi anunciada, sem prazo intermediário, passou a sensação de que “o programa morreu”. Segundo ele, parte da resistência dos produtores vem da associação indevida da rastreabilidade a uma pauta ambientalista, além de desinformação sobre o custo dos brincos, hoje em torno de R$ 7 a R$ 8 por animal. Para especialistas, a pressão do mercado internacional pode ser o que ainda resta para puxar o ritmo: a União Europeia paga mais por carne comprovadamente livre de desmatamento, e a China já sinaliza disposição de pagar até 10% a mais por carne certificada, um incentivo que o Pará ainda não conseguiu transformar em rastreabilidade real.