Pela primeira vez, importadores chineses se comprometeram a pagar até 10% a mais por carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento.
A Associação da Indústria de Carnes de Tianjin, que responde por cerca de 40% das compras chinesas de carne bovina do Brasil, firmou a compra de 50 mil toneladas do produto com garantia ambiental até o fim do ano.
O volume equivale a cerca de 4,5% do total que os exportadores brasileiros devem vender à China em 2026 — e desafia uma premissa enraizada no setor: a de que a China se preocupa apenas com o preço.
A certificação que conecta a Amazônia ao mercado chinês
A carne comprada por Tianjin terá o selo Beef on Track, desenvolvido pela ONG brasileira Imaflora. O padrão prevê quatro níveis de conformidade, definidos pelo grau de rastreabilidade ao longo da cadeia de suprimentos e pela comprovação de que as fazendas fornecedoras estão legalmente regularizadas — sem vínculos com desmatamento, legal ou ilegal, nem com trabalho escravo.
A certificação deve estar disponível para frigoríficos, supermercados e importadores até o fim do ano. O nível mais básico é equivalente ao critério utilizado pelo Ministério Público Federal para verificar se as fazendas que abastecem a indústria da carne bovina cumprem a legislação ambiental e trabalhista.
O programa abrange fornecedores responsáveis por cerca de 2,7 milhões de toneladas por ano — quase um quinto da produção brasileira e quase o dobro das importações chinesas de 2025.
“O setor ainda está tentando entender como essa certificação pode reconhecer e valorizar os produtos brasileiros em um cenário de tensão geopolítica”, disse Marina Guyot, gerente de políticas da Imaflora. Para ela, a iniciativa busca reconhecer o que as empresas já fazem — “criando a possibilidade de valorizar esse esforço”.
China muda postura ambiental — mas em ritmo próprio
A iniciativa de Tianjin não ocorre no vácuo. Em 2019, a China alterou sua lei florestal para proibir o comércio de madeira ilegal. Em 2023, assinou compromisso conjunto com o Brasil para eliminar o desmatamento ilegal impulsionado pelo comércio. Desde o ano passado, a COFCO, estatal chinesa de comércio exterior, também se comprometeu a limpar sua cadeia de suprimentos.
Andre Vasconcelos, da plataforma Trase, avalia que a cadeia da carne bovina está mais preparada para ações concretas do que a da soja, por ser menos essencial à dieta chinesa. A floresta amazônica perde centenas de milhares de hectares por ano, e cerca de 90% dessa área vira pasto logo após o desmatamento, segundo o MapBiomas.
Resistências, tarifas e o risco da lavagem de gado
Nem todos no setor celebram a iniciativa. A ABIEC, entidade que reúne exportadores como JBS e Marfrig, está insatisfeita com o projeto liderado por Xing Yanling. A preocupação, segundo fontes ouvidas pela Reuters, é que a demanda por carne sustentável vire mais um obstáculo num mercado já pressionado por cotas e tarifas.
Em nota, a entidade afirmou que “apoia iniciativas focadas em certificação, mas avalia que novos selos devem estar alinhados aos sistemas já existentes, evitando sobreposições e exigências que careçam de infraestrutura pública para implementação”.
Há também o desafio estrutural da rastreabilidade. O sistema brasileiro atual baseia-se em documentos de transporte de gado que, segundo promotores, podem ser fraudados para ocultar irregularidades — prática conhecida como “lavagem de gado”. Melhorias no sistema devem levar anos.
A janela para exportar sem sobretaxa está se fechando: o Brasil já consumiu metade da cota de 1,1 milhão de toneladas estabelecida pela China, e qualquer embarque além do limite estará sujeito a uma tarifa de 55% — justamente o período em que Tianjin planeja importar seu primeiro contêiner com certificação. A corrida para antecipar embarques foi tão intensa que o setor já projeta queda de 10% nas exportações de carne bovina em 2026, o que torna ainda mais urgente a busca por nichos de maior valor agregado.
No campo, o entusiasmo existe. O fazendeiro Altair Burlamaqui, de Castanhal, no norte da Amazônia, recebeu a delegação chinesa sem grandes expectativas — e foi surpreendido. “O que entendi é que eles querem um produto com mais valor agregado para uma parcela disposta a pagar por isso”, disse. “E essa parcela pode ser maior do que toda a população brasileira.”
