Os Estados Unidos isentaram a carne bovina brasileira da tarifa de 25% aplicada a diversos produtos do país, decisão anunciada em 15 de julho após quase um ano de investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio americana. A medida preserva uma rota comercial de 270 mil toneladas de carne, segundo dados de 2025.
Apesar do alívio, o governo dos EUA manteve o desmatamento ilegal na Amazônia entre os argumentos da investigação contra o Brasil, acendendo alerta entre frigoríficos amazônicos.
Rastreabilidade vira urgência para frigoríficos
Para a pesquisadora do Imazon Camila Trigueiro, os frigoríficos instalados na Amazônia Legal precisam agora comprovar a rastreabilidade total de seus rebanhos para se proteger de novos riscos de sanções e boicotes internacionais. “É preciso que todos os envolvidos nessa pauta – Governo, indústria e setor produtivo – façam um esforço conjunto para ter garantias ambientais e sanitárias para manter os mercados internacionais”, afirma.
A pesquisadora lembra que o Pará já perdeu o mercado da União Europeia por não se adequar às regras exigidas, restando apenas o Mato Grosso entre os estados amazônicos que ainda exportam ao bloco europeu. Some-se a isso o fato de o Brasil já ter esgotado sua cota de exportação à China, principal comprador da carne brasileira.
Seção 301 e a resposta do Brasil
A investigação foi conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo usado para apurar práticas estrangeiras consideradas desleais. Segundo o embaixador Jamieson Greer, “o Brasil permite que agricultores explorem terras desmatadas ilegalmente para obter vantagem sobre agricultores americanos”.
O governo brasileiro classificou as acusações como “absurdas” e informou que recorrerá à Lei de Reciprocidade e à Organização Mundial do Comércio (OMC). A isenção da carne bovina já havia sido confirmada dias antes, quando o governo Lula classificou o tarifaço de 25% de “marco lastimável” e reafirmou que recorreria aos dois mecanismos. Dias depois, o próprio ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, chamou de “absolutamente improcedentes” as alegações sobre desmatamento ilegal, dizendo que toda madeira exportada pelo Brasil é certificada por Ibama e Receita Federal.
Exportações batem recorde em meio à disputa
O impasse ocorre em um momento de forte expansão das vendas ao mercado americano. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que o Brasil exportou US$ 1,66 bilhão em carne bovina aos EUA em 2025, maior valor já registrado. Nos quatro primeiros meses de 2026, as vendas cresceram quase 41% na comparação anual, somando cerca de US$ 928 milhões. Em 2026, os EUA se consolidaram como o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China.
Na Amazônia Legal, 15 frigoríficos exportam para os Estados Unidos, com capacidade conjunta de abater 11 mil cabeças de gado por dia, segundo levantamento do Radar Verde. Dados do MapBiomas apontam que 90% da área desmatada na Amazônia teve a pastagem como primeiro uso, o que reforça a pressão sobre a pecuária. Antes da decisão final do USTR, representantes da indústria e do agronegócio brasileiro já haviam ido a Washington tentar barrar a sobretaxa, alertando que ela encareceria cadeias produtivas dos dois países.
Outros setores amazônicos temem ser confundidos com a pecuária. O diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém, Jhoy Gerald Rochinha Jr., destaca que o açaí paraense tem manejo sustentável e que os EUA respondem por apenas 25% a 30% das exportações do fruto. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) não respondeu aos pedidos de posicionamento sobre as alegações de desmatamento ilegal.
