O Tesouro Direto suspendeu por tempo indeterminado, às 10h desta segunda-feira (26), as negociações de títulos públicos para pessoas físicas. O motivo informado foi a forte variação nas taxas de juros no primeiro pregão após a reeleição do presidente Lula (PT).
Até as 13h, o aviso continuava no ar, com previsão de normalização ao longo do dia. No mesmo pregão, a Bolsa também travou logo na abertura.
Para aliviar a pressão, o Tesouro Nacional fez um leilão extraordinário e recomprou 8,4 milhões de títulos prefixados, por cerca de R$ 7,1 bilhões.
Taxas saltam em um único fim de semana
A remarcação de preços apareceu nos próprios títulos do Tesouro Direto. O Tesouro Prefixado 2032 passou de 12,89% ao ano na sexta-feira (23) para 15,78% nesta segunda.
Entre os papéis atrelados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2032 foi de IPCA mais 6,76% ao ano, antes do segundo turno, para IPCA mais 8,10%. Na ponta longa, o IPCA+ com Juros Semestrais 2060 subiu de IPCA mais 6,50% para IPCA mais 7,66%.
O movimento se repetiu nos contratos futuros de DI, termômetro das expectativas para a Selic. O vencimento de janeiro de 2028 saltou de 12,859% para 14,915% ao ano.
A taxa exigida pelos investidores mede o risco de emprestar ao governo. Pesam na conta as expectativas para inflação e juros, o tamanho e a trajetória da dívida pública e a capacidade de equilibrar receitas e despesas. Isso não significa, necessariamente, que o mercado espere um calote: a taxa também compensa o tempo de aplicação, a perda com a inflação e o que o investidor deixaria de ganhar em outras aplicações.
Três leilões cancelados
Também foram cancelados três leilões de títulos previstos para esta semana. Essas operações são voltadas principalmente a instituições financeiras e garantem captações maiores para financiar a dívida. Na terça (27), seria ofertada a NTN-B, que paga uma taxa fixa mais a variação do IPCA. É o equivalente ao Tesouro IPCA+ oferecido no varejo.
Na quinta (29), estavam previstas a NTN-F, que paga juros fixos a cada semestre, e as LTN, que pagam R$ 1 mil no vencimento. Nos dois casos, juros mais altos derrubam o preço que os compradores aceitam pagar. Para o governo, isso significa vender os papéis com retorno maior e encarecer a captação.
Quem ganha e quem perde com a alta
Para quem vai aplicar agora, as novas compras passam a render mais. Já quem tem títulos na carteira pode ter perda na venda antecipada, porque a alta dos juros reduz o valor de mercado dos papéis antes do vencimento.
Para o governo, captar recursos e refinanciar a dívida fica mais caro. Como as taxas de mercado servem de referência para empréstimos e financiamentos, empresas e consumidores tendem a pagar mais pelo crédito. No longo prazo, juros elevados podem reduzir investimento e consumo.
A reação já tinha aparecido no domingo à noite, quando o EWZ, fundo que replica ações brasileiras em Nova York, chegou a recuar 19% no after-hours logo após o resultado das urnas. O quadro é o oposto do registrado duas semanas antes, quando o risco país havia caído a 110 pontos, o menor nível desde 2020.