Economia

Risco país do Brasil cai a 110 pontos, o menor nível desde fevereiro de 2020

Prêmio contra calote da dívida brasileira já quase empata com o do México, que tem grau de investimento; aqui, a nota segue especulativa
Bandeiras do Brasil e do México simbolizam a queda do risco país Brasil, que se aproxima do nível mexicano

O prêmio que investidores cobram para se proteger de um calote da dívida soberana brasileira caiu a 110 pontos na sexta-feira (9), o nível mais baixo desde fevereiro de 2020. O recuo do risco país veio na esteira do primeiro turno das eleições presidenciais.

O mercado passou a trabalhar com a hipótese de um governo mais disposto a cortar gastos e estabilizar a dívida pública. É uma aposta em promessa, não em medida aprovada.

Mercado cobra menos para segurar o risco brasileiro

O CDS (Credit Default Swap) de cinco anos funciona como um seguro contra inadimplência soberana: quem compra paga um prêmio e recebe compensação se o país não honrar a dívida. Quanto menor a pontuação, menos o investidor exige para assumir esse risco.

Em 110 pontos, o contrato brasileiro ficou a 16 pontos do mexicano, hoje em 94. A proximidade não vale como diploma. O indicador também não traduz probabilidade oficial de calote: converter prêmio em probabilidade depende de hipóteses sobre quanto se recupera em caso de inadimplência e da metodologia adotada.

Nas agências de classificação, o descompasso entre os dois países continua intacto. O México é BBB na S&P (perspectiva negativa), Baa3 na Moody’s e BBB na Fitch — os três dentro do grau de investimento, ainda que no degrau mais baixo dele. O Brasil é BB na S&P, Ba1 na Moody’s e BB na Fitch, de um a dois níveis abaixo dessa faixa, na categoria especulativa.

A virada de percepção não começou agora. Ela dá sequência ao movimento dos dias anteriores, quando o Ibovespa deu o maior salto diário desde 2020 e rompeu a marca dos 200 mil pontos logo após a apuração.

Juros futuros e Tesouro surfaram a mesma onda

Na semana do resultado, a Bolsa subiu 8,82% e fechou em 209 mil pontos, enquanto o dólar recuou 4,40%, a R$ 4,98. Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.

A curva de juros reagiu com força. O DI para janeiro de 2032 saiu de 14,07%, em 2 de outubro, para 12,52%, em 8 de outubro — queda de 155 pontos-base. O contrato para 2035 recuou 153 pontos-base e fechou a 12,60%; o de 2028 ajustou-se a 12,54%. Um movimento de magnitude parecida levou cerca de dois meses para se desenhar no período do impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016; desta vez, uma oscilação semelhante ocorreu em um único pregão, o que dá a medida da rapidez com que os investidores recalcularam as apostas diante do resultado eleitoral.

O Tesouro Nacional aproveitou a janela e captou R$ 33,3 bilhões em títulos prefixados na quinta-feira (8), o maior leilão do tipo desde 2020, com 40,8 milhões dos 42 milhões de papéis ofertados efetivamente vendidos. Financiamento mais barato agora significa menos gasto com juros da dívida adiante. A demanda, no entanto, se concentrou em prazos mais curtos: quase 80% das LTNs (Letras do Tesouro Nacional) ofertadas venciam em janeiro de 2028 ou julho de 2029, e mais de dois terços das NTN-Fs (Notas do Tesouro Nacional – Série F) vendidas tinham vencimento em janeiro de 2031.

Analistas ouvidos pelo Poder360 avaliam que o Tesouro deve aproveitar a janela para ampliar gradualmente as emissões nos próximos leilões. Para Edgar Araújo, CEO da Azumi Investimentos, a concentração em papéis de prazo mais curto indica que a demanda deve seguir consistente sobretudo nesses vencimentos, mas a inflação de setembro, de 0,82% — acima do esperado —, exige cautela sobre o ritmo de queda dos juros daqui para frente. Fábio Murad, consultor da Wiser Asset, pondera que a melhora ainda está apoiada principalmente em expectativas políticas, sem refletir, por ora, mudança concreta nos fundamentos fiscais, e cita o crescimento da dívida pública e a rigidez dos gastos como fatores de risco a monitorar.

O que ainda não saiu do papel

A equipe econômica ligada ao senador estuda trocar o arcabouço fiscal de 2023 por uma meta de dívida bruta sobre o PIB, cortar de R$ 190 bilhões a R$ 300 bilhões em gastos via PEC e revogar cerca de mil atos administrativos por decreto. Nada disso veio com prazo, detalhamento ou estimativa de impacto fiscal, e parte das mudanças depende do Congresso. A partir de 2027, qualquer que seja o vencedor, a confiança do investidor ficará atrelada à execução — não ao anúncio.