O EWZ, fundo de índice negociado no exterior que replica ações brasileiras, recuava 19% no after-hours às 21h37 deste domingo (25). A queda veio após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno.
O tombo apaga o desempenho da sexta-feira (23), quando o ETF fechou em alta de 1,77%. Como o mercado brasileiro não funciona aos domingos, o fundo foi o primeiro ativo ligado ao país a reagir ao resultado das urnas.
Às 21h52, o EWZ ainda recuava 17,97%, a US$ 34,94, no pós-mercado de Nova York. Esse é o período de negociação após o fim do pregão regular das Bolsas americanas. Ele indica a reação dos investidores, mas não determina o desempenho do pregão seguinte. O fundo acompanha o índice MSCI Brazil, de empresas brasileiras de médio e grande porte, e tem forte peso dos setores financeiro, de energia e de materiais.
Como Bolsa e dólar fecharam antes da eleição
Até que o mercado local voltasse a operar, a referência disponível era o pregão de sexta-feira (23). Nesse dia, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, subiu 0,47% e fechou aos 205.083 pontos.
No câmbio, o dólar comercial caiu 0,90% e terminou cotado a R$ 4,9930.
Pesquisa, inflação e petróleo no radar
A última sessão antes do segundo turno foi marcada pela divulgação de uma pesquisa Datafolha que mostrava empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). O cenário era bem diferente da forte queda registrada pelo EWZ horas depois do resultado.
Os investidores também acompanharam o IPCA-15, considerado uma prévia da inflação oficial. O indicador subiu 0,32% em outubro, abaixo do que o mercado esperava, depois de avançar 0,70% em setembro.
No exterior, o petróleo voltou a subir. O movimento foi puxado por tensões geopolíticas e por uma queda nos estoques dos Estados Unidos maior do que a prevista. O barril do Brent, referência internacional, avançou 3,45%, a US$ 117,08. Já o WTI, referência no mercado americano, ganhou 4,02%, a US$ 103,45.
Ibovespa chegou à eleição com alta de 27% no ano
Mesmo com o ganho de sexta-feira, o Ibovespa terminou a semana com leve queda de 0,17%. Nos períodos mais longos, o saldo era bem mais positivo: alta de 10,06% em outubro e de 27,28% em 2026.
O dólar seguiu na direção oposta. A moeda americana encerrou a semana com recuo de 1,57% e acumulava baixas de 3,50% no mês e de 9,03% no ano.
ADRs também caem e analista vê abertura em forte queda
As perdas atingiram os ADRs, recibos de ações brasileiras negociados nos Estados Unidos. Por volta das 21h15, os papéis da Petrobras com código PBR, ligados às ações ordinárias, caíam 11,96%, a US$ 23,15. Os PBR-A, associados às preferenciais, recuavam 10,33%, a US$ 21,10. Os recibos do Itaú (ITUB) cediam 13,65%, e os da Vale (VALE), 4,19%.
A pressão também apareceu no câmbio. Às 23h40 de domingo (25), no horário de Brasília, o real recuava 10,5% frente ao dólar nos contratos futuros negociados na CME, em Chicago, com o contrato equivalendo a cerca de R$ 5,55 por dólar. Trata-se de uma referência do mercado futuro, diferente da cotação à vista no Brasil, mas que sinaliza a direção esperada para a abertura dos negócios.
A derrocada se aprofundou na madrugada e na manhã desta segunda (26). Segundo o g1, por volta das 7h41 (horário de Brasília), o EWZ caía 26,02% no pré-mercado de Nova York, negociado a US$ 31,51, contra US$ 42,59 no fechamento de sexta-feira (23). Nesse horário, os ADRs também registravam perdas mais profundas do que as do after-hours: Petrobras recuava cerca de 20%, Itaú, 28,5%, Bradesco, 26,8%, e Nubank, 24%. O Mercado Livre, com forte presença no Brasil, perdia 10,3%. Pouco antes da abertura da Bolsa, o fundo ainda caía 26,16%.
O movimento se espalhou pela Ásia. Os contratos futuros do real para novembro caíam cerca de 10% nas negociações do continente, e um fundo que acompanha a Bolsa brasileira e é negociado em Tóquio registrou perda de 15%. Os principais índices asiáticos, porém, fecharam mistos, com investidores cautelosos diante de uma semana de reuniões de bancos centrais: o Nikkei recuou 0,80%, o Kospi, 1,46%, e o Hang Seng subiu 0,51%.
Dólar passa de R$ 5,60 e B3 aciona circuit breaker
No mercado à vista, o dólar abriu a segunda-feira (26) em forte alta. Segundo o g1, perto das 9h40 a moeda avançava 12,25%, cotada a R$ 5,6048, antes mesmo do início das negociações do Ibovespa, às 10h. Com o pregão em andamento, a expectativa se confirmou: ainda na manhã desta segunda, a B3 acionou o circuit breaker e suspendeu as negociações por 30 minutos, no primeiro pregão após a reeleição de Lula. Em nota, a B3 explicou que o mecanismo é um procedimento operacional previsto para momentos de forte queda do mercado, que interrompe temporariamente as negociações e tem como referência a variação do Ibovespa.
Pelas regras da B3, o circuit breaker é acionado quando o Ibovespa cai mais de 10% em relação ao fechamento anterior, com pausa de 30 minutos. Após a reabertura, se a queda chegar a 15%, há nova interrupção, de uma hora, e uma terceira paralisação ocorre diante de queda de 20%. Antes desta segunda, a última vez que o mecanismo havia sido usado foi em 2020, durante a pandemia de Covid-19, quando o índice chegou a cair mais de 14% em um dia.
A reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, com 100% das urnas apuradas, surpreendeu parte dos investidores, já que a maioria das pesquisas das últimas semanas apontava vantagem do candidato do PL. O quadro político também alimenta a cautela: o ministro do STF Cristiano Zanin prorrogou a votação das 17h às 19h por problemas de deslocamento de eleitores em várias cidades, decisão que deve gerar questionamentos na Justiça, e Flávio não reconheceu o resultado e disse que pedirá a anulação do pleito.
“Não dá para descartar discussões sobre uma eventual judicialização do resultado ou outros desdobramentos políticos. Esse ambiente de incerteza tende a impactar os preços dos ativos”, avaliou William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue. Para Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, o principal foco será a condução da política fiscal no novo mandato, com a trajetória da dívida pública, o controle das despesas e a credibilidade das metas fiscais. Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM, citou que a equipe econômica sinaliza uma PEC com revisão de gastos obrigatórios e busca do centro da meta fiscal, na tentativa de recuperar a confiança do mercado.
A vitória de Lula contrariou parte do mercado, que apostava em mudança de governo e em uma agenda econômica menos expansionista com Flávio Bolsonaro. Essa expectativa havia impulsionado a Bolsa depois do primeiro turno: até sexta-feira, o Ibovespa acumulava alta de quase 7% desde o 1º turno, e o real havia ganhado quase 5% frente ao dólar. Com o resultado, os investidores podem rever posições ao longo da semana, o que tende a aumentar a volatilidade no câmbio e nos juros futuros.
Para Gabriel Pinheiro, sócio da GT Capital, a Bolsa deveria abrir em forte queda nesta segunda (26), em um pregão volátil. Ele estimava recuo de 5% a 9% do Ibovespa na abertura, para a faixa de 185 mil a 195 mil pontos. Em um cenário mais negativo, o índice poderia testar os 170 mil pontos nas semanas seguintes. O especialista não descartava o acionamento do circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações em quedas acentuadas.
Segundo Pinheiro, a intensidade da reação dependerá dos sinais do governo sobre política fiscal, da composição da equipe econômica e da relação com o Congresso. Ele avalia que bancos, varejo e empresas de consumo podem estar entre os setores mais pressionados, por terem se beneficiado da expectativa de queda dos juros.
O JP Morgan também reagiu ao resultado. Em relatório assinado pelo analista Vinicius Moreira e sua equipe, o banco rebaixou a recomendação para o real e para os títulos públicos brasileiros de overweight (exposição maior a determinado investimento) para marketweight (posição próxima à média do mercado). Segundo o documento, o resultado das urnas deve provocar uma forte revisão dos preços dos ativos brasileiros nesta segunda, já que parte dos investidores apostava na vitória de Flávio Bolsonaro.
O banco prevê que empresas mais dependentes da economia local, como as de consumo e serviços, sejam as mais afetadas, enquanto as exportadoras tendem a se sair relativamente melhor, já que a alta do dólar aumenta, em reais, a receita das vendas ao exterior. Os analistas também alertaram para a possibilidade de acionamento do circuit breaker na Bolsa brasileira, o que acabou se confirmado.
A principal dúvida dos investidores envolve o controle da dívida e das contas públicas. Se o mercado enxergar risco maior de descontrole fiscal, poderá exigir juros mais altos para financiar o governo, o que também encarece o crédito para empresas e consumidores e pode dificultar novos cortes na taxa básica de juros. O movimento ocorre depois de um período de valorização expressiva: em 5 de outubro, o Ibovespa havia registrado sua maior alta diária desde março de 2020.
Focus, Fed e petróleo na agenda da semana
Na agenda econômica desta segunda, o Boletim Focus, que reúne as projeções do mercado para a economia, ainda não incorpora a reação à vitória de Lula, pois as expectativas foram coletadas até sexta-feira. Dados de confiança do investidor e de investimento estrangeiro direto também estão no radar.
No exterior, os investidores seguem atentos ao petróleo, em meio aos esforços diplomáticos para aliviar a guerra entre Estados Unidos e Irã, e às reuniões de juros de bancos centrais. A principal expectativa é pela decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), prevista para quarta-feira (28), que pode trazer nova alta de juros. Para o Banco Central Europeu e o Banco do Japão, a projeção é de manutenção das taxas.
Reação inversa à do primeiro turno
A reação deste domingo é o oposto da registrada depois da primeira rodada. Naquela ocasião, o EWZ havia disparado 12,54% e o Ibovespa saltado 7,7% quando Flávio Bolsonaro apareceu à frente de Lula na apuração.
No câmbio, o dólar caiu abaixo da barreira de R$ 5 após o primeiro turno, que terminou com Flávio com 47,03% dos votos e Lula com 45,16%.