Economia

Reeleição de Lula faz dólar subir 9,2% e registrar a 3ª maior alta desde o Plano Real

Salto só fica atrás de dias da crise cambial de 1999 e do colapso financeiro global de 2008, mas tem origem distinta
Sede do Banco Central em Brasília sob tom dramático, ilustrando a alta do dólar reeleição Lula no mercado de câmbio

O dólar subiu 9,20% na segunda-feira (26), para R$ 5,40, e teve a terceira maior alta diária desde a criação do Plano Real, em 1994. O salto, medido pela taxa Ptax do Banco Central, veio após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo levantamento do Poder360, o movimento só perde para 15 de janeiro de 1999 (11,10%) e 8 de outubro de 2008 (9,33%). Parte do mercado apostava na vitória de Flávio Bolsonaro (PL), visto como mais disposto a um ajuste fiscal.

Aposta frustrada do mercado

A disparada da moeda americana reflete a frustração de investidores com o resultado das urnas. O senador Flávio Bolsonaro era tratado por parte do mercado financeiro como o candidato mais inclinado a conter o avanço das despesas públicas e a promover um ajuste nas contas do governo.

Com a vitória de Lula confirmada, os investidores reavaliaram os preços dos ativos brasileiros. A revisão de expectativas sobre a condução da economia nos próximos anos pressionou ao mesmo tempo o câmbio e a Bolsa de Valores.

A virada contrasta com o humor das semanas anteriores. Até o início de outubro, o real acumulava valorização de 10,19% em 2026, com o dólar a R$ 4,99, impulsionado justamente pela aposta em um governo mais fiscalista depois do primeiro turno.

Em resposta à pressão de investidores e empresários por sinais de ajuste fiscal, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou na terça-feira (27) que o governo enviará ao Congresso um projeto de lei para estabelecer expressamente o compromisso de atingir o centro da meta fiscal em 2027. Ao mirar o centro da meta, o governo poderá precisar bloquear mais recursos ao longo do ano, limitando os gastos dos ministérios. “Nós vamos dizer e dar todos os instrumentos para que a gente não tenha dúvida jurídica que a gente vai perseguir o centro da meta”, declarou a jornalistas, acrescentando que outras medidas estão em avaliação.

O ministro também afirmou que a equipe econômica se prepara para enviar ao Congresso a regulamentação do Imposto Seletivo, o chamado “imposto do pecado”, com expectativa de envio ainda naquela semana. Criado pela reforma tributária sobre o consumo, o tributo começará a ser cobrado em 2027 e incidirá sobre produtos e atividades prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros.

Na quarta-feira (28), o dólar abriu em alta de 0,16% perto das 9h, a R$ 5,3586, segundo o g1, ou seja, abaixo do patamar da Ptax de segunda. Os investidores seguiam atentos ao quadro fiscal, ao risco de crédito mais caro e à possibilidade de nova alta da Selic caso a valorização do dólar pressione a inflação. No exterior, o foco da sessão era a decisão de juros do Federal Reserve, prevista para o meio da tarde, com a maioria dos investidores esperando a manutenção das taxas, segundo dados do CME Group.

Ao fim da semana, o movimento se consolidou. Na sexta-feira (30), o dólar comercial subiu 1,09% e fechou a R$ 5,446, o maior valor de fechamento de 2026, após tocar R$ 5,463 durante o pregão. Na semana posterior ao segundo turno, a moeda acumulou alta de 9,15%, a maior variação semanal desde outubro de 2008, segundo a Agência Brasil. Em outubro, a valorização foi de 5,27%, e no ano o dólar avança 0,81%.

A Bolsa também sofreu. O Ibovespa recuou 0,75% na sexta, aos 167.921,80 pontos, no quinto pregão consecutivo de queda, e acumulou perda de 18,12% na semana, a maior desde março de 2020, no início da pandemia de covid-19. Em outubro, o índice caiu 9,88%, o pior resultado mensal desde junho de 2022. Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o resultado eleitoral, o índice despencou 13,88%, a maior queda diária desde março de 2020, e a intensidade das perdas acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações. Naquele dia, a Bolsa perdeu cerca de R$ 734 bilhões em valor de mercado. Dados da B3 apontaram retirada líquida de quase R$ 7,6 bilhões de investidores estrangeiros do mercado secundário de ações nos três primeiros pregões da semana.

Desde o recorde de fechamento de 9 de outubro, quando chegou a 209.066,90 pontos, o Ibovespa perdeu cerca de 41 mil pontos, e o ganho acumulado em 2026, que passava perto de 30%, recuou para aproximadamente 4%. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta com dados da B3, a queda semanal de 18,12% é a quinta maior desde o início do Plano Real, atrás de outubro de 1997 (22,17%, na crise asiática), outubro de 2008 (20,01%) e março de 2020 (18,88%), e igualou, com duas casas decimais, a da semana dos atentados de 11 de setembro de 2001.

Além do cenário doméstico, o ambiente internacional contribuiu: a forte queda de ações de empresas de tecnologia e de inteligência artificial, com o S&P 500 recuando 1,82% em Nova York na sexta, pressionou o dólar e as bolsas de outros países. Parte da volatilidade da sexta esteve ligada à formação da Ptax de fim de mês e à busca por proteção cambial antes do feriado de Finados, na segunda-feira (2/11).

No radar do mercado está ainda a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, marcada para a semana seguinte, com a Selic em 13,75% ao ano. Levantamento da B3 divulgado na quinta-feira (29), com base nos contratos negociados, indicava probabilidade de 63,1% de manutenção da taxa e de 28% de corte para 13,50%.

Choque político, não crise sistêmica

Apesar da intensidade, o episódio da segunda-feira (26) tem natureza diferente das duas datas que lideram o ranking da Ptax. As maiores altas anteriores ocorreram em meio a crises profundas: a cambial brasileira de 1999, que levou ao fim do regime de bandas, e a financeira internacional de 2008, que atingiu bancos, empresas e mercados no mundo inteiro.

Agora, o gatilho foi a mudança de expectativas provocada pelo resultado eleitoral, e não uma ruptura do sistema cambial ou um colapso do mercado global.

As outras disparadas da série histórica

1999: o fim das bandas cambiais

A maior alta diária do real, de 11,10%, ocorreu em 15 de janeiro de 1999, no primeiro mês do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O país enfrentava fuga de recursos, queda das reservas internacionais e desconfiança sobre a capacidade do governo de sustentar o câmbio. O Banco Central, que até então segurava a cotação dentro de limites predefinidos, abandonou o sistema e adotou o câmbio flutuante. A transição desvalorizou fortemente o real. Naquele mês, a moeda americana ainda subiu 8,91% no dia 13, 6,61% no dia 26 e 5,51% no dia 21.

2008: a quebra do Lehman Brothers

A crise do subprime, nascida no crédito imobiliário de alto risco dos Estados Unidos, se agravou com a quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Investidores fugiram de emergentes como o Brasil em busca de proteção no dólar. Em 8 de outubro, a Ptax saltou 9,33%. Houve ainda altas de 7,79% em 22 de outubro, de 5,98% em 6 de outubro e de 5,41% em 29 de setembro.

2017: o Joesley Day

Em 18 de maio de 2017, o dólar avançou 8,79% após a divulgação de uma gravação em que o empresário Joesley Batista, da JBS, conversava com o então presidente Michel Temer (MDB). O episódio abriu uma crise política e ampliou a incerteza sobre o governo.