A apuração do primeiro turno das eleições de 2026 virou combustível para o maior salto diário da bolsa brasileira desde 2020. O Ibovespa fechou a segunda-feira (5) em alta de 7,70%, aos 206.911,89 pontos — recorde nominal e primeira vez na história acima da marca dos 200 mil.
No câmbio, o dólar comercial caiu 4,12% e terminou cotado a R$ 5,001 na venda, após chegar a R$ 4,953 na mínima do dia. O gatilho foi o desempenho do senador Flávio Bolsonaro (PL), que ficou à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na contagem de votos.
Os números por trás da euforia
Na máxima do pregão, o índice da B3 chegou a 209.606 pontos, avanço de quase 9%, antes de devolver parte do ganho no fechamento. O volume financeiro negociado no dia somou R$ 102,7 bilhões. Entre as ações, os maiores ganhos ficaram com Magazine Luiza (+24,2%), Cosan (+23,8%), B3 (+22,6%), BTG Pactual (+22,5%) e Vamos (+21,3%). No conjunto, as empresas listadas no Ibovespa somaram cerca de R$ 500 bilhões em valor de mercado adicional nesta segunda-feira, segundo levantamento do Poder360.
A magnitude do movimento também apareceu fora do Brasil: segundo dados da Investing, o EWZ — fundo de índice negociado na Bolsa de Nova York que replica ações brasileiras — negociou 191,1 milhões de cotas nesta segunda-feira (5), o maior volume da série histórica. A marca superou o recorde de 166,6 milhões de cotas registrado em 18 de maio de 2017, no chamado “Joesley Day”, quando a divulgação de uma gravação envolvendo o empresário Joesley Batista, da JBS, e o então presidente Michel Temer (MDB) provocou forte reação negativa nos mercados. Na ocasião o fundo despencou; nesta segunda-feira, na direção oposta, o EWZ fechou em alta de 12,54%, a US$ 42,98.
O apetite por ativos brasileiros não se limitou ao pregão de segunda-feira. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, que considera aportes em IPOs e follow-ons, investidores estrangeiros injetaram R$ 12,61 bilhões na B3 nos quatro primeiros pregões de outubro, até a terça-feira (6) — volume 43,62% maior que o registrado em todo o mês de setembro (R$ 8,78 bilhões) e o maior aporte mensal desde fevereiro de 2026, quando a entrada líquida somou R$ 15,40 bilhões. Em nota, a Elos Ayta destacou que “o saldo expressivo evidencia a presença do capital estrangeiro nesse período de reavaliação das expectativas para o país”, mas ponderou que a coincidência com o calendário eleitoral não permite atribuir todo o ingresso de recursos ao resultado das urnas, já que o acumulado também inclui pregões anteriores à votação.
Flávio Bolsonaro somou 47,03% dos votos, ou 56.104.503, contra 45,16% de Lula, equivalentes a 53.879.538. A diferença de menos de dois pontos percentuais bastou para o mercado financeiro redesenhar suas apostas sobre os próximos quatro anos.
O resultado das urnas também ampliou a presença do PL no Congresso: o partido eleito 19 dos 54 senadores escolhidos no domingo e passará a ocupar 28 das 81 cadeiras do Senado a partir de 2027 — a maior bancada da Casa e, segundo levantamento do g1, a maior representação de um único partido no início de uma legislatura desde a Constituição de 1988.
A aposta é fiscal
Entre investidores, a leitura é que um governo liderado pelo senador teria mais disposição para promover ajustes nas contas públicas. Lula, por sua vez, é visto com desconfiança — percepção ampliada pelo pacote de benefícios adotado às vésperas da votação, que incluiu reajuste nos valores do Bolsa Família.
A equipe de Flávio afirma pretender cortar gastos equivalentes a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), revisar as regras que limitam as despesas públicas e reduzir a estrutura do governo — um ajuste estimado pela própria campanha em cerca de R$ 190 bilhões. Até a apuração desta segunda-feira, porém, a equipe não havia apresentado cálculos detalhados de como chegaria a esse valor, e parte das iniciativas citadas pode gerar receitas excepcionais ou antecipar recursos que seriam recebidos no futuro — o que torna a melhora permanente das contas públicas ainda dependente de detalhamento, aprovação no Congresso e execução.
Essa leitura fiscal também apareceu no mercado de juros futuros: as taxas de DI, que refletem as expectativas para os juros, recuaram em todos os principais vencimentos nesta segunda-feira — a de janeiro de 2035 caiu a 13,16%, de 14,06% registrados em 2 de outubro; a de janeiro de 2029 foi a 12,83%, de 13,69%; e a de janeiro de 2027, a 12,77%, de 13,47%. A trajetória dos juros, porém, ainda depende do resultado do 2º turno e do compromisso fiscal assumido pelo vencedor.
Levantamento do Poder360 com base no Boletim de Estatísticas Fiscais do Banco Central, referente a agosto e divulgado em 30 de setembro, estima que, se o patamar de juros futuros observado nesta segunda-feira se mantiver, o governo pode economizar R$ 65,8 bilhões no custo de rolagem da dívida pública — quase três vezes o custo do reajuste de 15,04% do Bolsa Família em 2027 (R$ 22,7 bilhões) e mais do que o impacto do aumento de R$ 120 no salário mínimo (R$ 54,6 bilhões).
Em entrevista ao g1, o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, afirmou que o resultado da eleição e a nova composição política alteraram as expectativas sobre a condução da economia, com investidores passando a antecipar uma trajetória mais controlada para a dívida pública — o que ajuda a explicar a queda dos juros futuros. Segundo ele, a taxa projetada para janeiro de 2031, por exemplo, recuou de cerca de 14% para 12,85% ao ano. Perri destacou ainda que juros futuros mais baixos tornam a renda fixa menos atraente frente às ações e reduzem a taxa usada para trazer a valor presente os lucros futuros das empresas — efeito que, segundo ele, beneficiou particularmente os bancos, ao tornar suas ações mais atrativas e aliviar parte das preocupações com inadimplência de empresas e consumidores.
A queda do dólar seguiu lógica semelhante, segundo Marcelo Bassani, economista e fundador da Boa Brasil Capital: a expectativa de maior equilíbrio fiscal aumenta o interesse por investimentos brasileiros, o que tende a elevar a entrada de recursos no país e, com isso, a oferta de dólares no mercado doméstico. Bassani recomendou cautela diante da intensidade da reação, já que os preços ainda estavam se ajustando ao novo cenário eleitoral. A moeda, de fato, seguiu cedendo: nesta terça-feira (6), por volta das 9h10, o dólar operava em queda adicional de 0,50%, cotado a R$ 4,9761.
A reação não nasceu no pregão brasileiro: ainda no domingo à noite, o ETF que replica o Ibovespa em Tóquio já disparava 9,4%, antecipando o movimento que se confirmaria horas depois na B3.
A conta que o próximo governo herda
O dado que sustenta a expectativa de ajuste é menos animador que o recorde: a dívida bruta brasileira alcançou 82,9% do PIB, com a avaliação de que as regras atuais do arcabouço fiscal não têm sido suficientes para estancar esse avanço.
A geografia do voto ajuda a dimensionar a intensidade da reação. A vantagem de Flávio se concentrou no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, enquanto Lula manteve força no Nordeste, desenhando um mapa eleitoral mais disputado do que o placar nacional sugere — ao todo, o senador venceu em 14 estados e no Distrito Federal, contra 12 estados em que Lula ficou na frente.
Parte do movimento cambial, aliás, já vinha sendo construída antes da apuração: semanas antes do primeiro turno, pesquisas da AtlasIntel chegaram a colocar o senador numericamente na frente no cenário de segundo turno.
O desfecho, no entanto, só vem em 25 de outubro. Até lá, o recorde desta segunda-feira segue sendo uma aposta, e não um resultado: a mesma precificação que levou a bolsa acima dos 200 mil pontos pode ser revista a cada nova rodada de pesquisas. Para o economista Gustavo Sung, a continuidade da valorização dependerá de a agenda econômica do vencedor se tornar prioridade já no período de transição e lua de mel do próximo governo. “Para que isso se sustente, a pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel e na transição, com o ajuste das contas públicas e as demais diretrizes econômicas pautados, votados e colocados em prática”, afirmou, em entrevista ao g1. “Sem isso, a expectativa se frustra e, em seis a doze meses, os ruídos podem voltar.”