Política

Lula vence Flávio Bolsonaro de virada e se torna o primeiro presidente eleito quatro vezes

Petista perdeu o primeiro turno por 47% a 45% e agora terá de lidar com oposição forte no Congresso e contas públicas pressionadas
Bandeira do PT tremulando ao entardecer, símbolo de Lula reeleito quarto mandato

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente neste domingo (25) ao derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Com a vitória, tornou-se o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para o cargo pelo voto popular.

O sistema do TSE confirmou o resultado às 21h08, com 97% das urnas apuradas. Naquele momento, Lula tinha 51,74%, contra 48,26% de Flávio. Às 21h59, com 99,97% das urnas apuradas, o petista chegava a 51,78%, contra 48,22% do senador.

O resultado inverte o primeiro turno, quando o petista ficou atrás por 47% a 45% dos votos válidos. Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27) e cumprirá o novo mandato de 2027 a 2031.

Os desafios do quarto mandato

A virada no segundo turno teve como pano de fundo uma campanha que ganhou fôlego nas redes e nas ruas. Segundo a Agência Brasil, Lula adotou um tom mais informal na internet, com vídeos em formato selfie e fala direta ao eleitor, e o deputado André Janones (Rede-MG) entrou na campanha e criou o grupo “Exército de Lula” no WhatsApp, que teria reunido mais de 10 milhões de pessoas para ampliar o engajamento pró-Lula. Ainda de acordo com a agência, movimentos sociais e estudantes organizaram atos em dezenas de cidades, com ruas tomadas de vermelho.

Segundo a Agência Câmara, que registrou 51,77% dos votos válidos para Lula e 48,23% para Flávio, foi a primeira vez que o segundo colocado no primeiro turno conseguiu virar a disputa presidencial na etapa final. No primeiro turno, os números do senador (47,03%) superaram os do petista (45,16%). Dados do TSE mostram ainda que a abstenção no segundo turno foi de 19%, a segunda menor taxa registrada, nível semelhante ao de 2006, quando Lula foi reeleito pela primeira vez.

Em votos absolutos, Lula recebeu cerca de 64 milhões, contra cerca de 59 milhões de Flávio, com 99,96% das urnas apuradas, segundo os dados do TSE. A diferença final foi de 4.392.907 votos a favor do petista, quase o dobro da registrada no primeiro turno, quando Flávio (56.104.503 votos) superou Lula (53.879.538) por cerca de 2,2 milhões, a menor margem de uma primeira etapa desde a redemocratização. Os dois finalistas somaram 13,95 milhões de votos a mais no segundo turno, em parte pela absorção dos 9,1 milhões de votos dados a outros candidatos na primeira etapa.

O comparecimento também cresceu: a abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno (33 milhões de eleitores) para 19,21% no segundo (30 milhões), um aumento de 3 milhões de eleitores nas urnas. Os votos em branco foram 1,12% (1,4 milhão) e os nulos, 2,12% (2,7 milhões).

A votação também foi marcada por reclamações. Ao longo do domingo, as campanhas presidenciais relataram dificuldades de acesso dos eleitores às seções, por causa de chuvas ou de problemas no transporte coletivo. Por decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, parte das urnas permaneceu aberta até as 19h, o que ocorreu pela primeira vez.

Na noite de domingo, em pronunciamento, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, confirmou o resultado. Segundo ele, a Justiça Eleitoral alcançou um resultado que “matematicamente define” os eleitos, com 99,9% dos votos válidos e mais de 64 milhões de votos para Lula, que será o 40º presidente da República, em mandato que, nas palavras do ministro, se iniciará em 5 de janeiro de 2027.

Nunes Marques também afirmou que a equipe técnica do tribunal detectou eventuais problemas ao longo do dia. Segundo ele, foi feito um bloqueio ao recebimento de boletins de urna para que nenhum servidor ou membro do tribunal tivesse acesso ao conteúdo, o que gerou uma contenção extraordinária e levantou dúvidas sobre a capacidade de armazenamento dos dados. O ministro disse que prorrogar uma eleição é possível, “mas ela tem que ser pensada, ela tem que ser calculada e estruturada”, e afirmou haver “absoluta segurança de todo o processo eleitoral”.

A nova gestão começa com dois problemas imediatos: uma oposição forte no Congresso Nacional e a necessidade de equilibrar as contas públicas depois da ampliação de benefícios durante a campanha e da promessa de reforçar programas sociais.

Às vésperas do segundo turno, o governo lançou o Prospera MEI, voltado a microempreendedores individuais, e reajustou o Bolsa Família em 15,04%, elevando o piso mensal de R$ 600 para R$ 691, a um custo de R$ 5,8 bilhões em 2026, segundo o governo. Adversários classificaram as medidas como eleitoreiras. Uma semana antes do primeiro turno, um levantamento já somava R$ 411,2 bilhões em medidas sociais anunciadas ou ampliadas pelo governo. Segundo levantamento do Poder360, o impacto das medidas de ano eleitoral chega a R$ 463,8 bilhões.

Na reta final da disputa, Lula também sancionou o fim da taxa das blusinhas, que cobrava 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, e editou uma medida provisória que proíbe o funcionamento das bets no país, além de enviar ao Congresso projeto que criminaliza operadores e quem fizer propaganda das apostas.

Parte das promessas depende agora do Legislativo e da reeleição. A PEC da Segurança Pública, que reorganiza a cooperação entre União, estados e municípios e prevê a criação do Ministério da Segurança Pública, ainda aguarda votação no plenário do Senado. O Pé-de-Meia Universitário, com bolsas de R$ 700 mensais por dez meses e custo estimado em R$ 4,6 bilhões por ano, também fazia parte das propostas de campanha. Já o Desenrola 3.0, lançado em 25 de setembro, deve ter impacto nas contas públicas a partir de fevereiro de 2027, quando o governo começa a assinar os contratos.

O plano de governo do petista inclui ainda, segundo a Agência Brasil, aumento do salário mínimo sempre acima da inflação, investimento em defesa nacional e a criação do que o programa chama de “a maior rede pública de cuidado ao câncer do mundo”, com investimentos em diagnóstico e tratamento.

Balanço do terceiro mandato

Entre as entregas do governo iniciado em 2023 estão a reforma tributária, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, a saída do Brasil do Mapa da Fome e a promulgação, em 16 de outubro, da PEC que acabou com a escala 6×1, fixando cinco dias de trabalho para dois de descanso e reduzindo a jornada semanal de 44 para 40 horas.

O período também teve crises. O escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS levou à saída de Carlos Lupi da Previdência. O ministro André Mendonça, do STF, autorizou a Polícia Federal a investigar suposto tráfico de influência de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, filho do presidente. Em junho, Jaques Wagner deixou a liderança do governo no Senado após ser alvo da Operação Compliance Zero, que apura fraudes do Banco Master.

No exterior, o principal desafio foi responder ao tarifaço dos Estados Unidos, com embates públicos com Donald Trump. O tema da soberania nacional, aliás, tornou-se uma das principais bandeiras da campanha petista, em contraponto à relação de Flávio Bolsonaro com o presidente americano. Internamente, o presidente foi criticado pelo aumento dos gastos públicos e pelos ataques ao Banco Central por causa da taxa de juros.

Da fábrica ao quarto mandato

Nascido em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns (PE), Lula chegou a São Paulo em 1952 com a mãe e os irmãos, num caminhão pau de arara. Formou-se torneiro mecânico pelo Senai e presidiu o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, à frente das greves do ABC durante a ditadura militar.

Em 1980, ajudou a fundar o PT. Perdeu as eleições presidenciais de 1989, 1994 e 1998 antes de vencer em 2002 e 2006. Deixou o Planalto em 2010 com aprovação recorde de 87% e voltou em 2023, após derrotar Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Em 2018, ficou fora da disputa depois de ter a candidatura barrada pelo TSE.

Entre um ciclo e outro, passou 580 dias preso na sede da Polícia Federal em Curitiba após condenação na Lava Jato. Em 2021, o ministro Edson Fachin, do STF, anulou as condenações e devolveu ao petista os direitos políticos.

Ao oficializar a candidatura em agosto, em convenção em São Paulo, Lula prometeu um quarto mandato “mais ousado” e avisou que pretendia enfrentar o Congresso por causa das emendas parlamentares.

Com o novo mandato, Lula somará 12 anos na Presidência ao fim de 2026 e chegará a 16 anos no cargo, aos 85 anos de idade, ao final de 2030. O tempo supera o de qualquer outro presidente eleito desde a redemocratização: Fernando Henrique Cardoso (PSDB) governou por oito anos. A Constituição permite só uma reeleição consecutiva, e Lula chegou ao quarto mandato porque seus períodos no cargo não foram seguidos: ficou 12 anos fora do Planalto antes de retornar em 2023.

Aos 81 anos, será novamente o presidente mais velho a assumir o cargo no país, marca que já tinha ao tomar posse em 2023, aos 77. A idade se tornou assunto na campanha depois da queda no Palácio da Alvorada, em outubro de 2024, e da retirada de um câncer basocelular no couro cabeludo, em abril de 2026. Na reta final, o próprio Lula transformou o tema em argumento eleitoral e, em comício em Fortaleza, pediu que eleitores com mais de 70 anos não deixassem de votar.