A Organização Mundial do Comércio (OMC) afirmou nesta terça-feira (15) que o comércio internacional atravessa um “momento crítico” e cobrou uma reforma nas regras que organizam as trocas entre os países.
O alerta chega em meio ao avanço de tarifas dos Estados Unidos, à guerra comercial entre Washington e Pequim e a disputas que já envolvem o Brasil, que recorreu à própria OMC em julho contra o tarifaço americano.
Para a entidade, o risco é que o comércio mundial deixe de seguir regras comuns e passe a se organizar em blocos geopolíticos rivais.
Uma escalada que começou em 2018
O estopim da atual crise remonta a 2018, quando o governo de Donald Trump impôs tarifas sobre produtos chineses sob a justificativa de práticas comerciais injustas e transferência forçada de tecnologia. A China revidou com tarifas próprias, dando início à guerra comercial que ainda molda a relação entre as duas maiores economias do mundo.
Mesmo após um acordo parcial entre os dois países, a disputa por setores estratégicos — como semicondutores, baterias e veículos elétricos — nunca deixou de existir. O Canadá também foi alvo de tarifas americanas sobre aço e alumínio, enquanto a expansão das exportações chinesas de carros elétricos e produtos industriais passou a irritar a União Europeia, que acusa Pequim de subsidiar empresas e gerar excesso de oferta.
Brasil também entrou na disputa
O Brasil passou a enfrentar novas tarifas dos Estados Unidos em 2025 e 2026 e, em julho, levou o caso à OMC — um movimento já sinalizado pelo governo desde o ano anterior, quando as tarifas de Trump chegaram a 50% sobre produtos brasileiros.
A OMC calculou que, caso o comércio mundial se divida em blocos geopolíticos rivais, o PIB global seria 5,1% menor até 2050 e as exportações cairiam 18,6%. Em um cenário mais extremo, de colapso da cooperação multilateral e substituição por acordos bilaterais isolados, a perda do PIB chegaria a 6,9% e as exportações recuariam quase 27% — com os países mais pobres entre os mais afetados.
Paralisia interna dificulta reformas
Enquanto tenta convencer os governos a atualizar as regras, a própria OMC enfrenta uma crise institucional: o Órgão de Apelação, principal mecanismo de recursos da organização, está paralisado desde 2019, depois que os Estados Unidos bloquearam a nomeação de novos julgadores. Na prática, os países ainda podem abrir disputas, mas dificilmente conseguem levá-las a uma decisão final.
A disputa aberta pelo Brasil já ganhou um novo capítulo: a China pediu para participar das consultas, alegando que as mesmas tarifas americanas também afetam produtos chineses.
As tentativas de reforma também esbarram em impasses recorrentes. Em março, os 166 membros não chegaram a um acordo durante a reunião ministerial em Yaoundé, nos Camarões — ocasião em que o Brasil bloqueou a extensão da moratória sobre comércio eletrônico. As negociações foram retomadas em Genebra, sem data para uma solução definitiva.
Por outro lado, a OMC estima que uma cooperação multilateral mais forte poderia aumentar o PIB global em 2,9% e elevar as exportações em quase 18%, mostrando que o custo da fragmentação não é inevitável.