Uma pesquisa do Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi) mapeou como secas e eventos climáticos extremos já reduzem a produtividade agrícola em dezenas de países.
Elaborado por especialistas do Instituto de Análise Econômica (IAE-CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona, o estudo aponta que a combinação entre clima extremo, guerras e insegurança alimentar eleva o risco de conflitos armados.
Regiões tropicais como Camboja, Bangladesh, Burundi, Nigéria, Paraguai e El Salvador já sentem as perdas agrícolas, segundo o pesquisador Hannes Mueller, do IAE-CSIC.
Guerras agravam a crise climática nos alimentos
A crise agrícola não decorre apenas do clima. A guerra na Ucrânia provoca turbulências recorrentes nos mercados de grãos, enquanto o conflito envolvendo o Irã no Estreito de Ormuz elevou os preços de combustíveis e fertilizantes, encarecendo a produção em todo o mundo.
O cenário se soma a um El Niño em desenvolvimento que pode jogar quase 49 milhões de pessoas na insegurança alimentar aguda até o fim de 2026, segundo o Programa Mundial de Alimentos.
Produtividade em queda — e em alta — gera tensão
Segundo Mueller, o problema central não é apenas a escassez, mas a mudança no valor da terra. Ao tornar regiões antes marginais mais produtivas, a crise climática atrai investidores e acirra disputas por propriedade e recursos.
O Sudão ilustra o paradoxo: deve produzir mais alimentos com as mudanças no clima, mas a distribuição desigual dos ganhos entre regiões do país pode criar novos vencedores e perdedores — e elevar o risco de conflito interno.
Instituições democráticas amortecem o risco de conflito
A equipe do Cadi identificou que essas transformações agrícolas têm mais chance de descambar para violência em países não democráticos. Em democracias, segundo Mueller, instituições e tribunais funcionam como espaço de negociação entre grupos com interesses divergentes, o que ajuda a evitar o confronto direto.
O Norte da África também preocupa os pesquisadores: “se você olhar o mapa, a situação parece terrível”, afirmou Mueller sobre a região.
Sul da Ásia é apontado como ponto crítico
Para Abdullah Fahimi, do Conselho Alemão de Relações Exteriores (DGAP), o Sul da Ásia combina dependência de recursos hídricos vulneráveis com forte importação de trigo, milho e óleo de palma de países como Rússia, Ucrânia, Canadá e Malásia — fluxo já pressionado pela guerra e pelo El Niño, como já apontava a previsão da FAO para o restante de 2026.
Enchentes como as que atingiram o Nepal em agosto de 2026 reforçam o alerta: a região concentra cerca de 2 bilhões de pessoas expostas a uma crise humanitária que tende a se aprofundar, alimentando o recrutamento por grupos armados na Nigéria e no Afeganistão quando famílias perdem sua fonte de sustento — tendência já antecipada por pesquisa publicada na Nature, que projetava alta de até 3% ao ano nos preços dos alimentos até 2035 nas mesmas regiões hoje sinalizadas pelo índice Cadi.