Meio ambiente

Cofre no Ártico guarda sementes que podem alimentar o futuro

Banco genético em Svalbard já ajudou a reconstruir coleção perdida na guerra da Síria
Entrada do cofre de sementes de Svalbard na neve ártica ao crepúsculo, com ruínas de Palmira ao fundo

No Ártico norueguês, o Cofre Global de Sementes de Svalbard guarda cópias de segurança da diversidade agrícola mundial para proteger a produção de alimentos de guerras, incêndios e outros desastres.

O Brasil integra essa rede: a Embrapa mantém 8.149 amostras brasileiras depositadas no cofre neste ano, com predominância de arroz, milho e feijão.

Um backup contra catástrofes

O cofre não substitui os bancos genéticos espalhados pelo mundo — funciona como reserva deles. Cada instituição depositante continua dona exclusiva de suas sementes, que só podem ser retiradas por quem as enviou.

A lógica ficou clara durante a guerra na Síria, iniciada em 2011. Pesquisadores do Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Secas (Icarda) precisaram abandonar seu banco genético no país, mas parte da coleção já havia sido duplicada em Svalbard. As amostras recuperadas permitiram reconstruir o acervo em instalações no Líbano e no Marrocos.

“Se não fosse pelo Svalbard Global Seed Vault e pelo envio dessa coleção para o cofre, muitas dessas amostras teriam desaparecido hoje”, afirma Gaši, do Icarda.

O papel do Brasil na rede

A Embrapa mantém bancos genéticos em diferentes unidades do país e um acervo nacional em Brasília, parte do qual é replicado em Svalbard como camada extra de segurança. Além de arroz, milho e feijão, o acervo brasileiro inclui soja, trigo, caju, fava, amendoim, mamona e gergelim.

As sementes guardadas no cofre não servem apenas para emergências. A presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, cita o avanço da vassoura-de-bruxa da mandioca no Amapá como exemplo de uso imediato: pesquisadores recorreram a materiais dos bancos genéticos para estudar variedades mais resistentes à doença.

A mesma estratégia orienta a resposta à mudança do clima. Variedades hoje pouco usadas podem conter características-chave para desenvolver plantas mais tolerantes à seca, ao calor, ao frio e a novas pragas — um raciocínio parecido com o que levou um estudo recente a mapear 48 zonas de transferência de sementes no Brasil, buscando quais variedades resistem melhor ao clima das próximas décadas.

Em escala local, guardiões de sementes no sertão de Pernambuco fazem trabalho semelhante, preservando variedades crioulas ameaçadas pela padronização agrícola.

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