A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) alertou que o mundo caminha para uma nova onda de alta nos preços dos alimentos, com impacto mais forte esperado entre o fim de 2026 e 2027.
Segundo Máximo Torero, economista-chefe da entidade, a combinação da guerra entre Irã e Israel, do conflito na Ucrânia e do El Niño está elevando os custos de produção agrícola em todo o mundo, pressão que deve chegar ao consumidor nos próximos meses.
Da commodity ao prato: até seis meses de atraso
Torero explicou à Reuters que a alta nos preços das commodities agrícolas normalmente leva de três a seis meses para chegar ao consumidor final. Por isso, mesmo com trigo, milho e arroz subindo nos últimos meses, o efeito pleno da crise ainda não apareceu nas prateleiras — as cotações atuais ainda refletem safras recentes favoráveis.
O economista aponta o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa parte significativa do petróleo e do gás natural comercializados no mundo, como um dos principais pontos de atenção para o setor agrícola. Os ataques da Ucrânia à infraestrutura de petróleo e gás da Rússia também reduziram a oferta de diesel e gás natural, insumos essenciais à produção de alimentos.
Custos em alta pressionam produtores
A alta do petróleo, a redução da oferta de fertilizantes do Golfo, a escassez de diesel em algumas regiões e eventos climáticos extremos elevam os custos agrícolas — aumento que, segundo Torero, inevitavelmente chegará ao consumidor.
Produtores dos EUA e da Austrália sob pressão
Nos Estados Unidos, produtores das nove principais culturas agrícolas podem acumular perdas de US$ 32 bilhões (R$ 164,48 bilhões) em 2027 sem apoio do governo federal, segundo a American Farm Bureau Federation. A entidade projeta que todas as culturas analisadas operem abaixo do ponto de equilíbrio financeiro no próximo ano — cenário que já levou parte dos agricultores a trocar milho e trigo pela soja, que exige menos fertilizantes.
Na Austrália, um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, o governo projeta queda de 21% na produção das culturas de inverno, atribuída ao aumento dos preços de combustíveis e fertilizantes. Já na Índia, o atraso da temporada de monções ameaça a produção de arroz. O Programa Mundial de Alimentos já estima que o El Niño forte pode elevar em 49 milhões o número de pessoas em insegurança alimentar aguda até o fim de 2026, chegando a 274 milhões de afetados em 45 países vulneráveis.
No Brasil, o Ministério da Fazenda já elevou a projeção de inflação para 5,1% em 2026, citando a persistência da alta dos alimentos e os riscos do conflito no Oriente Médio — sinal de que o alerta da FAO já reverbera nas contas oficiais do país.