A mudança climática está elevando o preço dos alimentos ao impactar diretamente a produção agrícola. O aumento das temperaturas, alterações nos padrões de chuva e eventos extremos reduzem a oferta, pressionando os custos para consumidores e agricultores.
Em maio de 2024, chuvas intensas no Rio Grande do Sul causaram prejuízos superiores a R$ 1 bilhão, ilustrando os efeitos do clima sobre o setor. Especialistas apontam a necessidade de adaptação e uso de práticas agrícolas mais resilientes para mitigar os impactos.
Impactos do clima na produção de alimentos
O aquecimento global altera o regime de chuvas, reduz áreas de cultivo e aumenta a frequência de eventos extremos, como ciclones e secas prolongadas. Essas mudanças prejudicam safras e reduzem a produtividade agrícola, especialmente em cultivos sensíveis ao calor, como o café. Em estados como Minas Gerais e São Paulo, principais produtores, áreas de plantio podem se tornar impróprias devido ao estresse térmico nas plantas.
Segundo André Braz, coordenador de Índices de Preços na Fundação Getúlio Vargas (FGV), “os efeitos climáticos mudam o volume e a distribuição das chuvas, e isso é fatal para as nossas safras. Se não chover no tempo certo e na quantidade certa, as safras são prejudicadas. E as nossas lavouras são lavouras extensas, muitas não admitem irrigação porque o custo ficaria elevadíssimo”.
Além disso, eventos extremos podem destruir colheitas inteiras. Em maio de 2024, as chuvas que inundaram o Rio Grande do Sul causaram prejuízos agrícolas de mais de R$ 1 bilhão, segundo a Confederação Nacional de Municípios.
Consequências nos preços
Com a diminuição da oferta, os preços dos alimentos tendem a subir, aumentando a insegurança alimentar. Um estudo publicado na revista Nature em março de 2024 aponta que o calor pode elevar os preços dos alimentos em até 3% ao ano até 2035, com África, América do Sul e sul da Ásia sendo as regiões mais afetadas.
Adaptação e estratégias para o futuro
Para Giampaolo Pellegrino, pesquisador da Embrapa, a falta de adaptação à nova realidade climática é um dos principais fatores que agravam os impactos na produção de alimentos. Ele destaca que, muitas vezes, não são necessárias grandes inovações tecnológicas, mas sim a aplicação de melhores práticas agrícolas já conhecidas para tornar o sistema mais resiliente.
Entre as estratégias sugeridas estão o uso de estoques reguladores, manejo adequado do solo, conservação da água, redução do uso de máquinas e aumento da cobertura florestal. “Vamos produzir mais floresta, mais madeira. Vamos manejar melhor o solo, usar menos máquinas, guardar água no sistema, fazer técnicas de conservação. Tudo isso são técnicas que a gente chama de adaptação. Se se reduz o impacto da mudança climática, o sistema fica mais adaptado ao clima futuro”, afirma Pellegrino.
O preço dos alimentos, no entanto, está atrelado a múltiplos fatores, incluindo o preço do dólar e conflitos globais, além das questões climáticas. A realização da COP 30 reforça a urgência de políticas públicas e investimentos em tecnologias agrícolas sustentáveis para garantir a segurança alimentar diante das mudanças climáticas.