Um estudo do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) de São Paulo avaliou cerca de 350 árvores nativas da Mata Atlântica para identificar quais espécies suportam melhor a poluição do ar nas cidades.
A pesquisa, divulgada nesta sexta-feira (4), mapeou 29 espécies na Reserva da Biosfera do Cinturão Verde de São Paulo (RBCV-SP) e aponta caminhos para o reflorestamento e a arborização urbana com plantas mais resistentes à contaminação.
Como o estudo avaliou a resistência das árvores
Os pesquisadores coletaram amostras de 350 árvores de 29 espécies em quatro parques localizados em São Paulo, Cotia e Iperó, sob diferentes fontes de emissão de poluentes e condições climáticas. A técnica utilizada, o biomonitoramento, mede como as plantas acumulam toxinas e reagem ao estresse ambiental causado pela poluição.
“O fato desses organismos responderem de maneira integrada ao estresse ambiental permite avaliar não apenas o acúmulo de um determinado poluente, mas também como a planta responde ao conjunto de condições ambientais às quais está exposta”, explica Ricardo Nakazato, pesquisador do IPA e professor da Universidade Guarulhos (UNG). Segundo ele, o método pode ser uma alternativa mais barata aos monitoramentos físico-químicos tradicionais usados por agências ambientais.
O levantamento classificou as espécies em quatro grupos: 6 sensíveis à poluição, 17 moderadamente resistentes, 4 tolerantes e 2 com resposta variável conforme o local. A RBCV-SP, reconhecida pela Unesco como reserva da biosfera em 1994, abrange 78 municípios paulistas, concentra cerca de 24 milhões de habitantes e responde por aproximadamente 20% do PIB nacional — o que torna a região um laboratório a céu aberto para medir a pressão humana sobre a vegetação nativa.
A descoberta chega dias depois de pesquisadores da USP apresentarem uma ferramenta para priorizar parques que regulam o clima das cidades, que avalia justamente quais dos 211 projetos de parques urbanos de São Paulo trazem mais retorno em regulação térmica e controle de enchentes — serviços que dependem da escolha certa de espécies vegetais.
Da peroba-rosa ameaçada ao guamirim-de-inverno resistente
A peroba-rosa (A. polyneuron), uma das espécies mais ameaçadas da Mata Atlântica e historicamente explorada pela construção civil e pela fabricação de móveis, apareceu entre as mais sensíveis à poluição do ar. Já o guamirim-de-inverno (E. cerasiflora), árvore endêmica de médio porte com frutos que alimentam pássaros e pessoas no inverno, foi uma das mais tolerantes à contaminação. O tanheiro (A. triplinervia) também se destacou pela resistência.
“Esses estudos mostraram que o nível de tolerância ao estresse oxidativo induzido por distúrbios ambientais varia consideravelmente entre as espécies arbóreas nativas da Mata Atlântica”, afirma a ecóloga Marisa Domingos, coordenadora da pesquisa no IPA. Segundo os autores, mais do que indicar espécies específicas, o estudo cria um modelo que pode incorporar novas árvores em avaliações futuras.
A pesquisa, financiada pela Fapesp por meio do núcleo BIOTA Síntese e do Plano de Desenvolvimento Institucional em Pesquisa do IPA, foi publicada na revista Restoration Ecology. O resultado reforça um alerta já documentado por outra pesquisa sobre os efeitos simultâneos da poluição do ar no clima e na saúde: quanto mais as espécies vegetais suportarem esse estresse, maior a chance de as cidades manterem os serviços ecossistêmicos que dependem delas.