Meio ambiente

Fábrica no ES transforma ossos e restos de carne em ração animal

Indústria em Fundão recolhe 350 toneladas por dia nos 78 municípios do ES e abastece granjas de poedeiras
Cortes e restos de carne que viram ração animal em fábrica do Espírito Santo

Uma indústria de Fundão, no Espírito Santo, recolhe diariamente 350 toneladas de restos de carne, ossos e gordura em abatedouros e açougues dos 78 municípios do estado para transformar o material em farinha e óleo usados na fabricação de ração animal.

Em Santa Maria de Jetibá, a farinha reforça a alimentação de galinhas poedeiras, fortalecendo ossos e cascas de ovos, e fecha um ciclo de economia circular que liga frigoríficos a granjas capixabas.

Do abatedouro ao laboratório

Todos os dias, dezenas de veículos saem da fábrica em Fundão para coletar pele, ossos, vísceras e gordura em frigoríficos, abatedouros e casas de carne — partes que sobram do abate e não vão para o consumo humano. Segundo o gerente de qualidade Israel Leandro da Silva, a farinha produzida a partir desses subprodutos é essencial para garantir o valor nutricional da ração, já que vem do próprio organismo animal.

Antes de deixar a indústria, cada lote passa por um laboratório interno. Amostras de farinha são analisadas por um equipamento de alta tecnologia, o NIR, enquanto o sebo bovino e o óleo de vísceras passam por testes químicos que medem principalmente a acidez do material.

Esse rigor de controle é o que separa uma cadeia segura de um desastre sanitário. Em 2025, o Ministério Público de São Paulo processou a fabricante Nutratta depois que uma ração contaminada com toxina hepatotóxica matou 645 animais em seis estados — lembrete de que o mesmo processo que dá vida nova ao resíduo pode virar risco sem fiscalização rígida.

A gordura extraída, entre sebo e óleo, também tem função própria: funciona como palatabilizante, dando sabor e atraindo o apetite dos animais para a ração. O excedente segue para as indústrias química e de cosméticos, virando insumo para biodiesel, sabão, produtos de higiene e até cremes e maquiagens.

Da fábrica à granja: ração sob medida

Na granja da avicultora Jerusa Sthur, em Santa Maria de Jetibá, quase 100 mil galinhas poedeiras produzem cerca de 2,7 milhões de ovos por mês, vendidos para Minas Gerais e Rio de Janeiro. Ali, a farinha vinda de Fundão é misturada ao milho, à soja e ao calcário — cada ingrediente com uma função: energia, proteína e formação da casca. A farinha entra para reforçar a estrutura óssea das aves e garantir cascas mais resistentes.

Segundo o gerente da granja, a fórmula da ração muda conforme a fase de vida das galinhas, com receitas específicas do nascimento até a fase adulta de postura, ajustadas para manter o rendimento produtivo ao longo do tempo. A alimentação é reposta oito vezes ao dia para que o alimento nunca falte aos animais.

O modelo capixaba amplia uma tendência já vista em outras frentes do agro do estado: em Linhares, produtores rurais transformam dejetos animais em biogás e biofertilizante por meio de biodigestores, reforçando a lógica de economia circular que vem ganhando espaço no campo do Espírito Santo.

Ao final da cadeia, o que começaria como descarte inevitável dos frigoríficos volta ao campo como alimento de alta qualidade, fechando um ciclo que une indústria, agropecuária e sustentabilidade dentro do próprio estado.

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