Meio ambiente

El Niño forte pode jogar 49 milhões na insegurança alimentar

PMA alerta sobre 49 milhões em risco, mas estoques recordes e tecnologia podem atenuar os efeitos do El Niño
Mapa térmico do El Niño com anomalias em laranja e vermelho no Pacífico, retratando El Niño insegurança alimentar

Um El Niño forte pode elevar em quase 49 milhões o número de pessoas em insegurança alimentar aguda até o fim de 2026, segundo o Programa Mundial de Alimentos (PMA), agência da ONU. O total afetado chegaria a 274 milhões de pessoas em 45 países vulneráveis.

O alerta foi divulgado na quarta-feira (5/8) pelo diretor do Serviço de Análise de Segurança Alimentar e Nutrição do PMA, Jean-Martin Bauer, que classificou o fenômeno como historicamente associado a fomes em grande escala.

Regiões mais vulneráveis

O El Niño é um aquecimento periódico das temperaturas da superfície do oceano Pacífico que altera os padrões climáticos globais, provocando seca na África Austral, atraso nas monções na Ásia e chuvas irregulares em outras regiões.

Segundo o PMA, a América Central deve ser a região mais impactada, com alta de 83% no número de pessoas em insegurança alimentar, seguida pela África Austral, com aumento de quase 75%. África Austral, América do Sul e Caribe podem somar, cada uma, mais de 12 milhões de novas pessoas afetadas.

A Organização Meteorológica Mundial já havia alertado que o El Niño deve atingir força elevada entre agosto e outubro — janela que coincide com as projeções divulgadas pelo PMA. Os efeitos já são perceptíveis em partes da Ásia: a Índia enfrenta uma temporada de monções abaixo do esperado, enquanto Austrália, Indonésia e Tailândia registram impactos da falta de umidade nas lavouras. Segundo Chris Hyde, meteorologista da empresa americana SkyFi, o fenômeno deve ganhar ainda mais intensidade no quarto trimestre de 2026 e no início de 2027.

Pressão sobre preços e monitoramento

Bauer afirmou que os mercados globais de alimentos entraram no período do El Niño em posição relativamente sólida, após boas colheitas em 2025, mas alertou que conflitos no Oriente Médio e perdas de safra ligadas ao clima podem pressionar ainda mais os preços. Análises da FAO e especialistas consultados pela Reuters reforçam esse diagnóstico de dupla face: estoques elevados funcionam como amortecedor, mas riscos persistentes seguem como ameaça real.

A China concentra quase metade dos estoques mundiais de trigo, enquanto a Índia acumula reservas de arroz equivalentes a mais de um ano de exportações globais do cereal. Os estoques globais de óleo de palma também estão próximos de níveis recordes — o produto responde por cerca de 60% das exportações mundiais de óleos comestíveis. O crescimento de novos grandes exportadores agrícolas reforça essa capacidade de compensação: o Brasil se tornou o maior fornecedor mundial de soja, com exportações crescidas mais de 13 vezes desde o El Niño de 1997 e 1998, e a Rússia exportou 48 milhões de toneladas de trigo no ano passado, ante cerca de 1 milhão de toneladas no mesmo período.

A tecnologia também ampliou a resiliência do sistema alimentar. Híbridos de milho tolerantes à seca foram amplamente adotados na África e nas Américas desde 2015, e variedades de trigo resistentes ao calor ganharam espaço na Índia e na Austrália. Satélites, previsões climáticas sazonais e sistemas de irrigação orientados por GPS permitem identificar áreas mais vulneráveis e direcionar insumos com mais eficiência. “Os governos têm informações muito melhores do que no passado e conseguem se preparar mais cedo”, disse Maximo Torero, economista-chefe da FAO.

Ainda assim, especialistas alertam que o sistema alimentar global continua vulnerável a choques combinados. A crise no Estreito de Ormuz, agravada pela guerra no Irã, perturbou o fornecimento de combustíveis e fertilizantes — passagem que concentra cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo bruto e gás natural liquefeito. A combinação de clima extremo, conflitos e custos elevados de produção pode pressionar a oferta e os preços dos alimentos mesmo diante dos amortecedores existentes.

Cortes no financiamento por parte de doadores dos Estados Unidos e da Europa em 2025 reduziram a capacidade de monitorar a crise: o PMA fez cerca de 1,1 milhão de pesquisas domiciliares em 2024, número que caiu para 800 mil em 2025 e segue em queda neste ano.

A NOAA atribui 81% de chance a um El Niño muito forte até dezembro de 2026, o que ajuda a dimensionar por que o cenário projetado pelo PMA não é hipotético, mas o mais provável entre os desdobramentos climáticos previstos.