Política

Estrategista de Bolsonaro e Milei é preso na Bolívia por atentado

Fernando Cerimedo é alvo de investigações por lavagem de dinheiro e proteção ao narcotráfico
Bolsonaro e Milei em composição editorial sombria com La Paz ao fundo, no caso Fernando Cerimedo preso na Bolívia

O argentino Fernando Cerimedo, estrategista digital que atuou em campanhas de Jair Bolsonaro e Javier Milei, foi preso em 18 de agosto no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia.

Ele é suspeito de ordenar a tentativa de feminicídio contra a advogada boliviana Nadia Beller, de 33 anos, baleada três vezes um dia antes em um hotel da cidade.

Uma trajetória construída sobre uma história forjada

Cerimedo costumava contar que deixara Mar del Plata aos 19 anos com uma bolsa para estudar em Harvard e treinar como triatleta, além de ter passado por treinamento com os Navy SEALs. Uma investigação de 2024 do Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP) desmontou essa narrativa: antes de virar estrategista, ele foi taxista, funcionário de seguradora e professor do ensino médio em Buenos Aires. Em 2016, a Justiça argentina já o havia condenado por fraude, com pena suspensa, por vender o mesmo apartamento a dois compradores.

A carreira política começou em 2018, na agência McCann, e ganhou força com teorias conspiratórias sobre a pandemia e desinformação no referendo constitucional chileno de 2020. No Brasil, ele estourou cinco dias após a vitória de Lula em 2022, com a live “Brasil Foi Roubado”, que espalhou um relatório anônimo sem provas sobre fraude eleitoral.

De Milei à Casa Rosada

Em 2023, assumiu a comunicação digital da campanha de Javier Milei — o mesmo Milei que meses depois viajaria ao Brasil para impulsionar a candidatura de Flávio Bolsonaro — e diz ter sugerido o uso simbólico da motosserra nos atos de campanha. Apesar de negar qualquer vínculo formal, o presidente argentino recebeu Cerimedo pelo menos treze vezes na Casa Rosada entre dezembro de 2023 e junho de 2024, segundo registros oficiais.

Paz, Milei e a fuga dos aliados

Conselheiro pessoal de Rodrigo Paz desde o fim de 2025, Cerimedo virou um problema político da noite para o dia. Em 18 de agosto, o porta-voz presidencial José Luis Gálvez ainda o chamava de “colaborador próximo”; uma semana depois, Paz negou qualquer contrato formal ou relação de trabalho direta — mesmo tendo herdado um governo pressionado por meses de protestos que chegaram a ilhar turistas e forçar recuos em políticas centrais da gestão.

Milei seguiu o mesmo roteiro, afirmando não ter “qualquer ligação” com o estrategista desde 2023 e classificando o caso como um “esquema castrochavista”. Fora da Argentina e da Bolívia, a queda de Cerimedo também repercutiu: a presidente mexicana Claudia Sheinbaum ligou protestos antigovernamentais de novembro de 2025 a redes internacionais da direita, e o colombiano Gustavo Petro o acusa, sem provas públicas, de ter manipulado a eleição que levou Abelardo De la Espriella ao poder.

Em paralelo às buscas que encontraram dinheiro em espécie em cinco imóveis ligados a ele, um promotor do departamento de Beni investiga se Cerimedo chegou a oferecer proteção a voos clandestinos do narcotráfico.

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