O Ministério da Defesa concluiu, em nota técnica enviada à Câmara de Comércio Exterior (Camex), que uma retaliação comercial do Brasil contra os Estados Unidos pela Lei da Reciprocidade prejudicaria a própria indústria nacional de defesa e segurança.
O documento foi produzido a pedido do chanceler Mauro Vieira, depois que o governo brasileiro tentou, sem sucesso, contestar junto ao USTR as tarifas aplicadas por Washington a produtos brasileiros.
Efeitos previstos pela nota técnica
O parecer do Ministério da Defesa lista uma série de consequências caso o Brasil opte por aplicar tarifas retaliatórias com base na Lei da Reciprocidade. Entre os riscos estão a perda de contratos, o encarecimento de projetos, a queda de competitividade da indústria brasileira no mercado internacional e a retração de investimentos americanos no setor.
“A retração de investimentos oriundos dos Estados Unidos também poderá ocorrer, o que demandará reconfiguração de cadeias de suprimento”, diz a nota técnica.
Dependência de insumos americanos
Um dos pontos centrais do parecer é a alta dependência de componentes e insumos dos Estados Unidos na linha de montagem da indústria de defesa brasileira. Segundo o ministério, tarifas sobre esses itens encareceriam a produção e afetariam diretamente grandes programas das Forças Armadas.
Entre as principais exportadoras nacionais citadas no documento estão CBC, Taurus, Nitroquímica, Embraer, CSD e RJC, responsáveis pelo envio aos EUA de peças de aeronaves, munições, compostos químicos e detonadores.
Diplomacia antes da retaliação
Diante desse cenário, a equipe técnica do Ministério da Defesa recomenda cautela e prioridade ao diálogo diplomático e empresarial antes de qualquer resposta tarifária. Para o ministério, a “reconfiguração intempestiva” das cadeias globais de suprimento comprometeria a inserção internacional do país.
A avaliação chega em meio ao processo iniciado pelo próprio governo: após o tarifaço de 50% aplicado pelos Estados Unidos, o presidente Lula pediu análises setoriais aos ministérios para avaliar possíveis medidas de reciprocidade.
A vulnerabilidade da indústria brasileira já havia sido apontada por economistas nos primeiros debates sobre os limites da retaliação: o Brasil tem respaldo jurídico, mas força econômica limitada para responder a Washington na mesma moeda.
A postura de cautela também ecoa declarações recentes do governo: semanas antes, o ministro do Desenvolvimento já defendia que a resposta brasileira deveria ser estratégica, não impulsiva — postura que a nota técnica da Defesa agora reforça com números concretos.