Política

Fraude em cadastro eleitoral impede candidatura de Flávio Bolsonaro

TSE restabelece filiação de Flávio ao PL e libera sistema para registro; prazo vai até às 19h de sábado
Fraude eleitoral Flávio Bolsonaro: candidato em retrato formal com sede do TSE ao fundo nas eleições 2026

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, determinou nesta quinta-feira (13) o restabelecimento da filiação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao PL e a exclusão do vínculo com o partido Missão de seu histórico partidário. A decisão encerrou horas de impasse durante as quais Flávio não conseguiu registrar a candidatura à Presidência porque o sistema eleitoral o mostrava filiado ao Missão em vez do PL. O TSE havia concluído que a alteração não foi fruto de ataque hacker, mas do uso indevido de credenciais da própria legenda — alguém com acesso ao sistema do Missão realizou o registro sem autorização. O Missão afirmou ter sido vítima de uma “tentativa de filiação fraudulenta” e revelou ter alertado o gabinete do senador sobre o problema desde o dia 2 de agosto.

A advogada da campanha, Maria Claudia Bucchianeri, classificou a alteração como fraudulenta e havia alertado que o registro só poderia ser protocolado após a regularização da filiação. Com a decisão de Nunes Marques, que também determinou a liberação imediata do sistema para o protocolo da candidatura, o PL passou a ter o caminho desobstruído para registrar Flávio antes do prazo final, às 19h do sábado (15).

O que se sabe sobre a alteração

Segundo Bucchianeri, a equipe jurídica já havia iniciado os procedimentos para o registro na noite de quarta-feira (12), quando a filiação de Flávio ainda constava normalmente no PL. Há indícios de que a mudança ocorreu entre a noite de quarta e a manhã desta quinta, e a certidão que embasava o pedido foi emitida antes da alteração aparecer no sistema.

A advogada citou como precedente o episódio de 2022, quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu filiado ao PL no sistema eleitoral. Segundo ela, os sistemas da Justiça Eleitoral passaram por aprimoramentos após aquele caso, o que reforça a suspeita de fraude agora. “Vai ter que abrir um inquérito para entender”, disse. A mesma advogada já havia levado ao TSE, em julho, uma denúncia sobre 20 mil perfis falsos usados para atacar Flávio, e cobra agora resposta rápida da Corte sobre o novo episódio.

TSE descarta ataque hacker e determina inquérito

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou à GloboNews que houve uma “falsificação”, sem detalhar como a alteração teria ocorrido. Nos bastidores da legenda, integrantes chegaram a atribuir o episódio a um ataque hacker — hipótese que o TSE descartou em nota oficial. Segundo o tribunal, a filiação ocorreu por meio de “uso indevido da ferramenta por parte de alguém que possuía as credenciais da legenda para efetivar filiações”, ou seja, alguém com acesso ao sistema do Missão realizou o registro de Flávio de forma indevida.

O próprio Missão se apresentou como vítima da fraude. Em nota oficial, a legenda afirmou que seu sistema identificou a irregularidade e tentou realizar o cancelamento da filiação no mesmo dia, mas a ação foi rejeitada pelo TSE. O partido revelou ainda que alertou o gabinete de Flávio sobre a filiação indevida desde o dia 2 de agosto — 11 dias antes de a crise vir a público.

Um documento de quatro páginas assinado pela área de tecnologia do Missão e distribuído à imprensa detalha a cronologia da fraude. Segundo o relatório, houve duas tentativas de filiação: uma no dia 2 e outra no dia 12 de agosto. A primeira, no dia 2, foi feita em modalidade que exigia pagamento de R$ 4.789,68 — com duas tentativas via PIX que não foram efetivadas. No mesmo dia, foi aberto um segundo pedido, desta vez em modalidade sem contribuição financeira. O Missão identificou uma divergência entre o CPF informado no cadastro e o CPF vinculado ao título de eleitor do senador e notificou o TSE pedindo a exclusão do registro — pedido que o sistema do TSE recusou. Nesta quinta (13), apesar da divergência de CPF não resolvida, o registro de Flávio como filiado ao Missão foi efetivado, desencadeando a crise que impediu o protocolo da candidatura. O documento revelou ainda um detalhe revelador: o endereço cadastrado na filiação irregular era “Rua Dos Bandidos, nº 666, Bairro Miliciano, Rio de Janeiro/RJ”. O relatório conclui que a ação foi feita “por terceiro não identificado, sem autorização do titular do nome utilizado”, e a legenda anunciou que disponibilizará logs, e-mails e endereços de IP às autoridades para identificar os responsáveis.

Nesta tarde, o candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, foi além da nota oficial do partido. Ele afirmou que pode comprovar que alguém acessou o e-mail pessoal de Flávio Bolsonaro para confirmar a filiação do senador ao Missão e clicou para entrar no aplicativo da militância do partido — sugerindo que a fraude envolveu não apenas as credenciais do Missão, mas também acesso à conta de e-mail do senador. “O gabinete de Flávio Bolsonaro abriu os e-mails, portanto, o gabinete dele tinha ciência de tudo isso e, mesmo assim, nada foi feito da parte deles para regularizar a situação”, declarou. Renan afirmou ainda que Flávio não é bem-vindo no partido: “Isso atinge a honra do nosso partido e nós não queremos ter gente como ele sequer sonhando em figurar com uma marca de gente honesta, inteligente, decente como o partido Missão.” Para encerrar a controvérsia, propôs uma “acareação pública” entre ele e Flávio, transmitida ao vivo em qualquer televisão, com apresentação de IP por IP e log por log do sistema.

O ministro Kassio Nunes Marques enviou uma representação à Procuradoria-Geral Eleitoral para adoção das providências cabíveis e determinou a abertura de investigação pela Polícia Federal, com preservação dos registros de log e de acesso ao sistema de filiação partidária. Na mesma decisão, restabeleceu a filiação de Flávio ao PL, excluiu o vínculo com o Missão de seu histórico partidário e liberou o sistema para o protocolo do registro de candidatura. O Partido Liberal havia protocolado, por sua vez, pedido formal de desfiliação de Flávio do Missão, que estava sob análise da Justiça Eleitoral.

Flávio Bolsonaro foi oficializado candidato pelo PL durante a convenção realizada em São Paulo no fim de julho, que terminou sem a definição de um vice. Em seu discurso de lançamento, ele afirmou representar a continuidade do projeto político do ex-presidente Jair Bolsonaro e fez críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A candidatura se tornou a principal aposta eleitoral do PL para a disputa presidencial de 2026.

Após o episódio, Flávio gravou um vídeo para suas redes sociais. “Vocês viram aí que tentaram fraudar a minha filiação partidária. O sistema vai tentar de tudo para me parar, mas não vai conseguir”, afirmou. Em publicação na rede social X, completou: “Tenho uma má notícia para vocês que só sabem jogar sujo: não funcionou e nem vai funcionar.” Com a filiação regularizada por decisão do TSE, o PL pode agora protocolar o pedido de registro, com prazo final às 19h do sábado (15).

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