Entidades como a Abimaq, a Amcham e a CNI pediram, no dia 24, que o governo Lula priorize o diálogo com os Estados Unidos em vez de acionar a Lei da Reciprocidade contra o novo tarifaço americano.
A cobrança do setor produtivo vem depois de o Planalto classificar como “arbitrária e injustificada” uma tarifa de 12,5% ligada a acusações de trabalho forçado, aplicada dias após uma sobretaxa de 25% por supostas práticas desleais.
Segundo tarifaço em poucos dias
Os Estados Unidos anunciaram duas tarifas contra produtos brasileiros na mesma semana. A primeira, de 25%, foi justificada pela Casa Branca com a alegação de que o Brasil pratica concorrência desleal contra empresas americanas. A segunda, de 12,5%, foi motivada pela conclusão do governo americano de que o país falhou em fiscalizar a importação de mercadorias ligadas a trabalho forçado.
Diante do anúncio mais recente, o Palácio do Planalto classificou a medida como de “caráter completamente arbitrário e injustificado” e informou que vai acionar de imediato os instrumentos da Lei da Reciprocidade, além de levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).
Setores pedem cautela
A Abimaq afirmou, em nota, que vê a decisão americana com preocupação, mas confia na diplomacia brasileira para “construir soluções”, defendendo o fortalecimento dos canais institucionais entre os dois países para evitar uma escalada. A Amcham reconheceu que a tarifa agrava as condições de acesso das exportações brasileiras aos EUA, mas também discorda de uma resposta recíproca, enquanto a CNI defendeu a continuidade das negociações.
A resistência do empresariado à reciprocidade não é nova: a divergência entre governo e setores produtivos já havia aparecido dias antes, quando a tarifa de 25% entrou em vigor e Abimaq, Abicalçados e Abit defenderam priorizar a via diplomática em vez da reciprocidade.
Diplomatas veem pouca margem de negociação
No Ministério das Relações Exteriores, a avaliação interna é que os Estados Unidos não demonstraram intenção real de negociar, ignoraram os argumentos apresentados pelo Brasil e realizaram reuniões apenas para “cumprir tabela”, de forma protocolar.
Ainda assim, diplomatas defendem que qualquer reação brasileira seja calibrada com cuidado, para não piorar a situação e gerar consequências ainda mais danosas ao setor produtivo. A própria Lei da Reciprocidade prevê um rito próprio a ser seguido antes que qualquer contramedida possa ser aplicada.
A cautela também aparece em episódios anteriores da crise: dias antes, auxiliares de Lula já sinalizavam que a resposta seria calibrada “cirurgicamente”, mirando setores como o audiovisual e as patentes farmacêuticas para não prejudicar a própria economia brasileira. Um dia antes deste episódio, o governo já havia detalhado o mecanismo da Lei da Reciprocidade e confirmado que a nova alíquota elevaria a sobretaxa total sobre produtos brasileiros a até 37,5%.
