O governo brasileiro anunciou nesta quinta-feira (13) a abertura formal do processo de reciprocidade contra os Estados Unidos, resposta às tarifas aplicadas pela Casa Branca a produtos brasileiros.
Pelo mecanismo, o Itamaraty notifica Washington e solicita consultas diplomáticas antes de aplicar contramedidas equivalentes às sofridas pelo Brasil.
Como funciona a notificação aos EUA
O Ministério das Relações Exteriores confirmou que está notificando formalmente o governo dos Estados Unidos sobre a abertura do processo e solicitando consultas diplomáticas — etapa prevista pela legislação antes de qualquer contramedida ser efetivamente aplicada. A Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) terá até 30 dias, prorrogáveis pelo mesmo período, para elaborar um relatório sobre o enquadramento das medidas americanas nas hipóteses previstas pela lei — etapa que precede qualquer discussão sobre contramedidas concretas. Paralelamente, o Brasil mantém pressão sobre o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para que sejam encerradas as investigações abertas com base na Seção 301, dispositivo usado por Washington para justificar as tarifas.
O objetivo, segundo fontes do governo, é dar uma “cutucada” nos Estados Unidos para tentar levar Washington de volta a uma negociação baseada em critérios técnicos e comerciais — e não desencadear retaliações imediatas. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Márcio Elias Rosa, alinhou esse diagnóstico: afirmou nesta quinta-feira que a abertura do processo “não prejudica o desejo de negociar”. Em entrevista à GloboNews na sexta-feira (14), foi além: disse que a medida de reciprocidade “não é ofensa” e que o objetivo é “reequilibrar a balança”. O ministro classificou as decisões americanas como “indevidas” e “injustas” em relação ao Brasil e reforçou que o governo pretende recorrer a todos os mecanismos disponíveis de defesa comercial, incluindo os internacionais. Rosa manifestou esperança de que as divergências sejam resolvidas pelo diálogo e que as medidas dos Estados Unidos contra o Brasil sejam revistas.
Também nesta sexta-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a posição do governo em entrevista aos podcasts “Não Inviabilize” e “As Cunhãs”, no Palácio da Alvorada. Lula afirmou que abriu o processo de reciprocidade para mostrar que o Brasil “não é qualquer coisa” e declarou que vai “vencer os Estados Unidos na narrativa”. O presidente classificou as medidas americanas como baseadas em “mentiras” — citando alegações que considera infundadas, como as de que o Brasil compraria produtos provenientes de trabalho escravo e não combateria o desmatamento. Apesar do tom firme, descartou o escalonamento do conflito. “Não quero guerra, eu quero discutir com seriedade”, declarou. Lula também manifestou intenção de manter relação cordial com Donald Trump e disse tentar conversar diretamente com o presidente americano, preservando o que classificou como uma relação “muito respeitosa” entre as duas maiores democracias do continente.
O governo destaca que, desde o anúncio do tarifaço original, foram realizados mais de 30 contatos com a contraparte americana — por telefone, videoconferência e reuniões presenciais, em níveis presidencial, ministerial e técnico —, sempre por iniciativa do lado brasileiro. O próprio ministro chegou a contatar diretamente o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
A avaliação no Palácio do Planalto, porém, é que a crise entrou em uma nova fase. Integrantes do governo brasileiro consideram que mesmo uma nova conversa no nível presidencial pode não ser suficiente para mudar o rumo da disputa: a percepção é que o Departamento de Estado passou a comandar o processo e que o secretário de Estado, Marco Rubio, tornou-se o personagem central na condução da política americana para o Brasil. Na leitura do governo, as tarifas foram uma decisão essencialmente política — os Estados Unidos estariam em “modo eleição”, de olho na disputa pelo controle político da América Latina, com o Brasil em posição estratégica nesse cenário. Nos bastidores, integrantes do governo afirmam que o país não buscou uma guerra comercial e continua disposto a negociar. Ao mesmo tempo, sustentam que países que cederam imediatamente às pressões americanas acabaram prejudicados — e que o Brasil “não vai se curvar”.
Nem todos os setores da economia brasileira apoiam a escalada. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) alertou nesta sexta-feira (14) que uma guerra comercial pode aumentar os custos de produção, pressionar empregos e afetar investimentos no país. Para a federação, o Brasil corre o risco de ser prejudicado duas vezes: primeiro, pela dificuldade de acesso ao mercado americano; depois, pelo encarecimento de insumos importados usados na produção nacional. Em estudo de 2025, a FIEMG estimou que um cenário de sobretaxa recíproca de 50% sobre importações americanas poderia custar ao Brasil até R$ 259 bilhões — o equivalente a 2,21% do PIB. Na mesma linha, representantes da indústria de máquinas e equipamentos também resistem à retaliação direta: o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) defendeu que o país priorizasse a via diplomática e empresarial em vez de retaliação direta. A tarifa de 25%, que entrou em vigor no dia 22 de julho, foi justificada pelo governo Trump após investigação que concluiu que o Brasil adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio americano — entre os exemplos citados estão o sistema de pagamentos PIX e a regulação de plataformas digitais, argumentos amplamente contestados pelo Brasil.
A movimentação ocorre em meio a avanços também na frente da Organização Mundial do Comércio (OMC). O governo americano respondeu ao pedido de consultas apresentado pelo Brasil à entidade e se disse “à disposição” para negociar — “estamos à disposição para nos reunirmos com os representantes de sua missão em uma data mutuamente conveniente para a realização das consultas”, afirma o documento. Além disso, a China solicitou participação nas consultas abertas pelo Brasil contra os Estados Unidos, alegando ter “interesse comercial substancial” na disputa, uma vez que uma das medidas questionadas pelo governo brasileiro também afeta produtos chineses.
Um ano de tensão comercial
O caso mais recente confirma um padrão que se repete desde 2025. A Lei da Reciprocidade foi regulamentada por Lula em julho daquele ano, logo após o primeiro tarifaço de 50% anunciado por Trump, tornando-se desde então o principal instrumento jurídico do país para reagir a barreiras comerciais unilaterais. Em agosto, o vice-presidente Alckmin chegou a apostar que o mecanismo aceleraria o diálogo com Washington — expectativa que, um ano depois, ainda não se concretizou.
Mais recentemente, o Brasil já havia acionado a lei contra uma sobretaxa adicional relacionada a acusações de “trabalho forçado”, que elevou a tarifa total sobre parte das exportações brasileiras a até 37,5%. O governo também acionou a OMC para contestar duas novas tarifas anunciadas pela Casa Branca, classificando as medidas como discriminatórias, unilaterais e contrárias aos compromissos assumidos pelos Estados Unidos junto à entidade.