Economia

Com endividamento alto, brasileiros retiram R$ 41,7 bi da poupança

Estoque das cadernetas recua a R$ 1 trilhão; Selic elevada torna aplicação menos atraente frente a outros investimentos
Banco Central em contexto da retirada da poupança endividamento 2026

Os brasileiros retiraram R$ 41,7 bilhões a mais do que depositaram nas cadernetas de poupança entre janeiro e abril de 2026, informou o Banco Central nesta sexta-feira (8).

A fuga de recursos combina dois vetores: o endividamento crescente das famílias — 82,8 milhões de pessoas estavam com dívidas em março, segundo a Serasa Experian — e a baixa rentabilidade da poupança frente a outras aplicações.

O estoque total da modalidade recuou de R$ 1,02 trilhão em dezembro de 2025 para R$ 1 trilhão ao fim de abril.

Somente em abril, o saldo negativo da caderneta ficou em R$ 476 milhões. O número, embora expressivo, é menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior: entre janeiro e abril de 2025, a evasão totalizou R$ 52,1 bilhões.

Por que a poupança perdeu competitividade

As regras de remuneração limitam o retorno da caderneta quando a taxa Selic ultrapassa 8,5% ao ano. Nesse patamar, o rendimento fica travado em 0,5% ao mês acrescido da variação da Taxa Referencial (TR) — teto que a deixa em desvantagem frente a produtos atrelados diretamente à Selic ou ao CDI, mais rentáveis no atual ciclo de juros.

O endividamento que pressiona os saques atingiu marca histórica nos últimos meses: em fevereiro, o comprometimento da renda familiar com dívidas chegou a 49,9% — o maior nível desde o início da série do Banco Central, em 2005, conforme levantamento do Tropiquim.

Governo lança Desenrola 2.0 em ano eleitoral

Com quase metade da população endividada, o governo lançou o Desenrola 2.0, voltado para brasileiros com renda mensal de até cinco salários mínimos — equivalente a R$ 8.105. O programa tem como foco as dívidas com o sistema bancário, que concentram 47% dos R$ 557,7 bilhões em débitos registrados em março pela Serasa Experian, como o Tropiquim já havia apontado.

Uma das novidades é a possibilidade de usar 20% do saldo do FGTS — ou até R$ 1 mil, o que for maior — para pagar parcial ou integralmente essas dívidas. Para viabilizar o programa, o governo destinou entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões em recursos esquecidos em tesourarias bancárias como fundo de garantia — além da liberação parcial do FGTS, mecanismo detalhado pelo Tropiquim.

O cruzamento entre endividamento elevado e juros altos coloca a poupança em posição delicada: ao mesmo tempo em que famílias precisam de recursos para honrar compromissos financeiros, encontram na caderneta um retorno que não acompanha o ritmo das dívidas. A medida foi adotada em um ano eleitoral, sinalizando a pressão política gerada pela crise de crédito das famílias brasileiras.

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