O Brasil pode perder mais de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) em exportações de carne bovina, mel e pescados caso o embargo aprovado pela União Europeia entre em vigor em 3 de setembro.
O bloco alega falta de mecanismos suficientes para fiscalizar o uso de antimicrobianos nas cadeias produtivas brasileiras, mas empresários dos setores atingidos apontam motivação protecionista por trás da decisão.
Carne bovina concentra a maior parte das perdas estimadas
A Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) projeta perda de US$ 504 milhões (R$ 2,6 bilhões) em exportações de carne bovina para a União Europeia até o fim deste ano. Caso o embargo se estenda por 2027, o prejuízo pode ultrapassar US$ 1 bilhão (R$ 5,1 bilhões). Em 2025, o bloco respondeu por 3,68% do volume exportado pelo setor, mas concentrou cerca de 6% da receita, já que compra principalmente cortes nobres como filé mignon, contrafilé e alcatra. Os principais compradores foram Países Baixos (US$ 382,8 milhões) e Itália (US$ 374,2 milhões), seguidos por Espanha, Alemanha e Bélgica.
Já em meados de julho, o presidente da Abiec alertava que o setor corria risco real de não conseguir se adequar a tempo às exigências europeias sobre antimicrobianos.
Mel e pescados também sentem o efeito do bloqueio
No setor de mel, a Abemel estima perda de US$ 4 milhões entre setembro e dezembro. A União Europeia responde por cerca de 5% das exportações do produto, e o faturamento no primeiro semestre deste ano quase dobrou em relação a 2025, de US$ 3,18 milhões para US$ 6,35 milhões. Para o presidente da entidade, Renato Azevedo, o embargo interromperia o trabalho de diversificação de mercado em curso.
O setor de pescados, fora do mercado europeu desde 2017, também pode ser afetado. A Abipesca calcula que o bloqueio pode impedir a entrada de até US$ 100 milhões em receitas em 2027 — ano em que o Brasil aguarda o resultado de uma auditoria realizada em junho para retomar as vendas ao bloco.
Brasil nega irregularidade e tenta reverter a medida
O sistema de defesa agropecuária brasileiro, ligado ao Ministério da Agricultura, tem um dos menores índices de rechaço do mundo, próximo de zero, e a União Europeia não identificou presença de antimicrobianos nos produtos exportados. Para o setor, trata-se de uma disputa sobre controle e fiscalização, não sobre contaminação — e a pressão de produtores locais europeus, preocupados com a competitividade da carne brasileira, pesaria mais do que o argumento sanitário.
Três dias após a ratificação do embargo, em 6 de junho, o governo brasileiro enviou à União Europeia um novo plano de fiscalização de antibióticos. A proposta só deve ser avaliada na próxima reunião do bloco, marcada para novembro, dois meses depois de o bloqueio já estar em vigor. O governo chegou a editar novas regras de rastreabilidade e criar um protocolo de certificação voluntária para bovinos livres de antimicrobianos na tentativa de evitar a medida, mas o protocolo só foi homologado pelo Mapa em maio, o que deixou o país em desvantagem no prazo estabelecido pela União Europeia. O caso ainda ganha peso diante do tarifaço dos Estados Unidos, que, mesmo isentando carne, mel e pescados, aumentou a incerteza sobre o comércio exterior brasileiro.