Economia

Carne brasileira só retorna à União Europeia depois de dois anos, diz setor

Frango pode ser liberado ainda em setembro, mas comitê europeu só analisa novos protocolos em novembro
Corte de carne bovina com bandeira da União Europeia ao fundo, ilustrando o embargo carne brasileira União Europeia

A União Europeia vai suspender, a partir de 3 de setembro, as compras de carne bovina, frango e mel do Brasil, após excluir o país da lista de fornecedores que atendem às regras europeias sobre uso de antimicrobianos na pecuária. A medida não foi motivada por irregularidades encontradas na carne brasileira, mas pela avaliação do bloco de que os controles do país sobre o uso dessas substâncias são insuficientes.

Segundo André Bartocci, presidente da Câmara Setorial da Carne Bovina, o bloco não deve voltar a comprar carne bovina brasileira antes de dois anos, prazo ligado ao ciclo de vida do boi sob os novos protocolos. A União Europeia responde por apenas 3,7% do volume exportado e 5,8% do valor das exportações brasileiras de carne bovina — fatia pequena, mas em trajetória de crescimento: o Brasil enviou 51,2 mil toneladas ao bloco no primeiro semestre de 2026, 19% a mais do que no mesmo período de 2025, e o valor das vendas anuais superou US$ 1 bilhão em 2025, segundo a Abiec. O bloco é visto pelo setor como uma espécie de vitrine: atender às suas exigências é considerado um selo de qualidade que abre portas para mercados igualmente exigentes, como Japão e Coreia do Sul. Produtores que criaram rebanhos inteiros para atender às exigências do bloco enfrentam impacto total.

Frango tem ciclo mais curto — cerca de 45 dias entre nascimento e abate — e pode retomar as vendas já em setembro, segundo a indústria.

Missão europeia decide ritmo da retomada

Bartocci afirma que recebeu a informação em reunião com o Ministério da Agricultura há duas semanas: um animal que passe a seguir hoje os novos protocolos sobre antimicrobianos levará cerca de 24 meses para atender aos padrões exigidos pelo bloco. A Comissão Europeia não confirmou o prazo exato, mas disse ao g1 que a retomada “dependerá dos ciclos de produção dos animais”. O Ministério da Agricultura não respondeu aos pedidos de entrevista.

Para o frango, cujo ciclo de vida gira em torno de 45 dias, a expectativa é mais otimista. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), afirmou que uma missão da União Europeia deve visitar o Brasil no fim de agosto para verificar os novos protocolos de controle — que incluem mais fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos, já previstas pelo Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC).

O alerta sobre o prazo de dois anos não é novidade: ainda em meados de julho, a Abiec já havia sinalizado que a adequação às exigências europeias levaria cerca de dois anos, dado o ciclo da pecuária bovina, como mostrou o Tropiquim.

A preferência europeia é por cortes nobres do traseiro do boi — filé mignon, contrafilé, alcatra e coxão mole — e pelo filé de costela do dianteiro. Por esses cortes, o bloco paga cerca de US$ 10 por quilo, enquanto a China, maior compradora do produto nacional, desembolsa em média US$ 6,50 pelo mesmo volume, segundo estimativas do Cepea-USP. Além disso, nem todos os estados brasileiros têm autorização para exportar carne ao bloco: apenas Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão habilitados — e mesmo nesses estados cada fazenda precisa passar por inspeção europeia e cada animal abatido para o bloco exige rastreabilidade individual.

Representantes do agro brasileiro veem na medida um viés protecionista, já que o bloqueio foi anunciado dias após a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul — tratado que enfrentou forte resistência de agricultores europeus temerosos da concorrência de produtos sul-americanos mais baratos. Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar carne para o bloco.

Já em julho, o embaixador que preside o Conselho da UE havia descartado qualquer exceção ao Brasil, reforçando que a decisão era técnica — o que explica por que o impasse segue sem solução a um mês do embargo, como já mostrava reportagem do Tropiquim.

Desde maio, quando a UE anunciou a decisão, o governo brasileiro negocia com os europeus para reverter a medida. Em junho, o Ministério da Agricultura criou novas regras para atender às exigências do bloco, mas, até o momento, os europeus não voltaram atrás — e o prazo aperta para os exportadores, que precisam embarcar a carne bem antes de 3 de setembro.

Entre os produtos afetados, o mel é o de menor peso comercial, mas vinha em aceleração acentuada: as exportações para o bloco dobraram no primeiro semestre de 2026, somando US$ 6,35 milhões — ante US$ 3,18 milhões no mesmo período de 2025 —, impulsionadas pela redistribuição de mel antes destinado aos Estados Unidos, encarecido pelo tarifaço de Donald Trump. A participação europeia na pauta exportadora de mel cresceu de cerca de 5% em 2025 para quase 10% no primeiro semestre deste ano; em 2025, o Brasil era o 7º maior exportador do produto no mundo em volume e o 8º em valor. Segundo Renato Azevedo, da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), o produto é majoritariamente orgânico e certificado, reduzindo o risco de contaminação — o cuidado principal é evitar a chamada contaminação cruzada, quando colmeias próximas a áreas de criação de gado podem ser afetadas.

Para a carne bovina, as perdas projetadas são bilionárias: a Abiec estima que o embargo pode custar ao setor US$ 504 milhões só até o fim deste ano, segundo apuração do Tropiquim. Enquanto isso, os relatórios da missão europeia de agosto só serão avaliados pelo SCoPAFF, comitê da Comissão Europeia, em reunião marcada para novembro.

Sem perspectiva de retomada rápida, pecuaristas que apostaram no mercado europeu já redesenham seus planos. Rafael Andrade Asato e André Bartocci, produtores do Mato Grosso do Sul cujo rebanho é criado integralmente dentro dos protocolos da União Europeia — incluindo rastreabilidade individual por chip na orelha e restrição total de antimicrobianos via Cota Hilton —, estudam redirecionar vendas para outros destinos. Asato planeja intensificar abates na segunda quinzena de setembro para que a carne chegue à China em janeiro, aproveitando cotas de importação com isenção de tarifa; também avalia encaixar o rebanho em programas de exportação para os Estados Unidos ou em protocolos de carnes nobres voltadas ao mercado interno. “Não faz sentido eu agregar um custo de rastreabilidade, de chip, se eu não tiver um prêmio por isso”, afirma. Bartocci pretende manter os protocolos por pelo menos seis meses enquanto acompanha as negociações. Se o embargo se prolongar, cogita voltar a usar a monensina — antimicrobiano permitido no Brasil mas vedado pela UE como promotor de crescimento.

A preocupação com os efeitos de longo prazo sobre a cadeia é compartilhada por economistas do setor. Como o boi padrão Europa é mais caro de produzir, uma boa parte dos produtores tende a abandonar os protocolos se não receber remuneração adicional por isso. “É natural que isso ocorra porque eles não estarão recebendo a mais por isso”, avalia Carvalho, pesquisador do Cepea-USP. Bartocci lamenta que o bloqueio possa desestimular outros pecuaristas a manter os padrões de rastreabilidade conquistados ao longo de anos.

Para os dois produtores, o veto vai além do debate técnico sobre antimicrobianos. “A gente tinha tudo para acessar os grandes mercados hoje. Então esse veto da Europa frustra”, afirma Bartocci. Asato aponta a contradição de o bloco manter o Irã entre seus fornecedores enquanto exclui o Brasil: “Não faz muito sentido você ter países como o Irã na lista e tirar o Brasil”.

No horizonte mais amplo, o embargo europeu chega em momento duplamente delicado. Juliana Torres, analista de inteligência de mercado da StoneX Brasil, lembra que o país também enfrenta cotas impostas pela China — seu maior comprador — que aceleraram as exportações no primeiro semestre. “O primeiro semestre foi marcado por uma aceleração das exportações para a China para atender às cotas e talvez, agora, o Brasil olhasse mais para os países europeus. Historicamente o Brasil exporta mais para a União Europeia no segundo semestre”, diz Torres. Sem essas duas saídas, a analista avalia que dificilmente o volume será totalmente absorvido por outros destinos, e a tendência é de aumento da oferta de carne no mercado interno nos próximos meses — ainda que a virada do ciclo pecuário, com menor disponibilidade de animais para abate, deva evitar quedas mais expressivas de preços. O quadro é agravado pela instabilidade no mercado norte-americano: embora carne bovina e mel tenham ficado isentos do tarifaço de Trump, empresários do setor consideram imprevisível a relação com os Estados Unidos — e a Europa era vista, até então, como um destino mais seguro.

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