Meio ambiente

Júri do assassinato do guardião Paulo Guajajara é adiado mais uma vez, agora para 2027

Sete anos após a emboscada na TI Arariboia, o MPF diz não ver justificativa para o atraso e pode pedir prioridade ao tribunal
Prédio do MPF e tribunal em cena institucional: julgamento assassinato Paulo Guajajara adiado para 2027

O julgamento do assassinato do guardião da floresta Paulo Paulino Guajajara, morto em 2019 na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, foi adiado mais uma vez. Agora, a previsão é que ocorra no primeiro semestre de 2027.

Segundo reportagem de Karla Mendes, da Mongabay, a assessoria do juiz federal Ronaldo Desterro alegou que “não há vaga na pauta de audiências da unidade”. Há um ano, a justificativa foi falta de tempo para fazer o júri em 2025.

O processo também trata da tentativa de assassinato de Laércio Guajajara, que estava com Paulo e sobreviveu ao ataque, atribuído a madeireiros ilegais.

MPF vê atraso sem justificativa

O procurador federal Alfredo Falcão, que está à frente do caso, considerou “triste” que o júri não tenha sido marcado para 2026. “Aparentemente, não há nenhuma justificativa por parte do juiz para que o júri não tenha ocorrido ao longo de 2026, uma vez que o último ato processual praticado foi ainda no final de 2025”, afirmou.

O Ministério Público Federal vai apurar “quais foram os reais motivos do atraso desse julgamento” e está organizando uma reunião com o magistrado. Como último recurso, pode pedir ao tribunal que o caso seja julgado com prioridade.

O órgão já tinha pedido celeridade duas vezes, em setembro de 2023 e em julho de 2026. Segundo Falcão, os recursos dos réus e a demora do laudo antropológico sobre os danos coletivos à comunidade travaram o processo. O laudo levou mais de dois anos para ficar pronto e só foi anexado em agosto de 2025. Desde então, diz o procurador, não há motivo para a paralisação.

O gabinete de Desterro recusou o pedido de entrevista. Citou a Lei da Magistratura Nacional, que proíbe juízes de opinar sobre processos ainda não julgados.

Primeiro júri federal do tipo no Maranhão

O julgamento deve ser um marco: será o primeiro processo por crime contra a vida de lideranças indígenas a chegar a um júri federal no estado. Em geral, esses assassinatos são tratados como crimes contra indivíduos e julgados pela Justiça estadual. Segundo o MPF, este caso foi para a esfera federal porque representa uma agressão a toda a comunidade Guajajara e à cultura indígena.

Entre 1991 e 2023, 81 indígenas Guajajara foram mortos no Maranhão. Desses, 38 morreram na TI Arariboia, e seis eram guardiões da floresta. Nenhum acusado foi julgado até hoje.

A demora repete um padrão histórico de impunidade, visto em massacres como os de Corumbiara e Pau D’Arco, ligados a disputas por terras e recursos naturais.

“Parece que nós não somos vistos como gente”

José Maria Paulino Guajajara, pai de Paulo, diz que se sente enganado. “Se fosse para resolver, eles [já] tinham resolvido”, afirmou por telefone. No sétimo aniversário da morte do filho, a família acendeu velas sobre o túmulo. “Meu filho morreu por nós, protegendo a nossa terra.”

Laércio Guajajara, sobrevivente e testemunha do crime, diz desconfiar da Justiça. “O cara matar um índio é o mesmo que matar qualquer animal”, disse. “Sempre estão dizendo isso: ‘ano que vem, ano que vem’. Mas a luta não pode parar. Não vou desistir jamais.”

Em vídeo gravado em 1º de novembro, ao lado de outros guardiões, Olímpio Iwyramu Guajajara, presidente da Associação Indígena Ka’aiwar dos Guardiões da Floresta da TI Arariboia, cobrou: “Queremos justiça!”

Quem são os Guardiões da Floresta

Formado há quase duas décadas, o grupo de indígenas Guajajara arrisca a vida para proteger a Arariboia da extração ilegal de madeira, da caça e de outros crimes ambientais. Os guardiões também protegem os Awá, que vivem isolados na floresta e são considerados o grupo indígena mais ameaçado do planeta.

O caso faz parte de um cenário de violência que cresce: segundo a Global Witness, o Brasil teve 26 assassinatos de ativistas ambientais em 2025, o dobro do ano anterior. Sete das vítimas eram indígenas.