O Brasil acumula uma longa história de massacres contra indígenas e ribeirinhos, muitos deles esquecidos ou pouco conhecidos. Episódios como o Massacre de Corumbiara, Pau D’Arco e Haximu evidenciam a violência sofrida por essas populações. Especialistas apontam que a busca por terras e recursos naturais está na raiz desses conflitos, que seguem marcados pela impunidade e pelo apagamento histórico.
Massacres emblemáticos e suas motivações
Entre os casos mais marcantes está o Massacre de Corumbiara (1995), em Rondônia, onde uma ação conjunta de policiais e fazendeiros resultou na morte de dez pessoas, envolvendo disputa por terras e luta pela demarcação de territórios indígenas. Já o Massacre do Rio Cautário (1988), também em Rondônia, vitimou indígenas Uru-Eu-Wau-Wau, motivado por interesses de madeireiros e garimpeiros ilegais, causando mortes e deslocamentos forçados.
O Massacre de Pau D’Arco (2017), no Pará, teve dez trabalhadores rurais assassinados por policiais durante uma reintegração de posse, enquanto reivindicavam terras. No Pará, em 1980, o Massacre do Cururu resultou na morte de indígenas Kayapó, perpetrado por fazendeiros e agentes do Estado. Em 1991, o Massacre do Rio Urubu, no Amazonas, envolveu o ataque de garimpeiros ilegais à etnia Baré, evidenciando a vulnerabilidade dessas comunidades.
Segundo o antropólogo João Pacheco de Oliveira, a colonização portuguesa legitimou a violência contra os povos indígenas com as chamadas “guerras justas”, visando garantir acesso à terra e mão de obra. No início da colonização, havia entre 2 a 4 milhões de indígenas no território brasileiro, pertencentes a cerca de mil povos distintos. Hoje, segundo o Censo de 2022, restam apenas 260 etnias e 1,69 milhão de indígenas, representando 0,83% da população.
Pacheco de Oliveira destaca que a violência recorrente está ligada à busca por terras e recursos naturais. O esquecimento desses episódios, segundo ele, serve para apagar responsabilidades históricas.
Outros massacres e o apagamento histórico
O caso Juma
O povo juma, que contava com até 15 mil pessoas no século 18, foi dizimado ao longo dos séculos. Em 1964, seringalistas atacaram a terra indígena, matando dezenas de indígenas. Em 2021, com a morte de Aruká Juma por covid-19, extinguiu-se a linhagem masculina do povo. Atualmente, apenas três mulheres sobrevivem, vivendo no rio Xingu. O massacre só foi investigado em 1979, mas ninguém foi responsabilizado.
Durante a ditadura militar, o apagamento de casos de violência foi sistemático, com censura à imprensa e à produção cultural. Massacres eram classificados como “conflitos fundiários” ou “homicídios isolados”, sem reconhecimento como crimes contra a humanidade. Mesmo com avanços da Comissão da Verdade, o conhecimento sobre esses crimes ainda é limitado.
Massacre do Capacete e Haximu
Em 1988, o Massacre do Capacete, na comunidade ticuna, deixou 14 mortos e 23 feridos. O caso foi posteriormente julgado como genocídio, após pressão do Ministério Público Federal. Em 1993, o Massacre de Haximu, contra os yanomami, foi o primeiro reconhecido como genocídio no Brasil, com ao menos 16 mortos após invasão de garimpeiros armados.
Massacre de Caarapó
Os guarani kaiowá, vítimas de ataques e expulsão de terras, sofreram em 2016 o Massacre de Caarapó, quando fazendeiros invadiram a fazenda Yvu e mataram um indígena, ferindo outros seis. O caso evidencia a continuidade da violência e a disputa por territórios indígenas.
O apagamento histórico e a impunidade permanecem como marcas desses episódios, dificultando o reconhecimento e a justiça para as populações atingidas.