Meio ambiente

Mexilhão-dourado chega à Amazônia antes do previsto e deixa pescadores do Pará sem respostas

Plano federal de 2018 previa rede de monitoramento, mas o Ibama admite não ter acompanhamento regular nem verba específica
Vista aérea de rio na floresta e agentes do Ibama: mexilhão-dourado na Amazônia pescadores do Pará sem respostas

O mexilhão-dourado, molusco asiático classificado como espécie exótica invasora pelo Ibama, já foi registrado em todos os municípios banhados pelo rio Tocantins e avança pela Amazônia paraense décadas antes do que previam os modelos científicos.

No Lago de Tucuruí, pescadores relatam peixes mais magros, queda na produção e conchas do invasor no estômago dos animais. Os órgãos ambientais admitem que não têm monitoramento regular nem recursos específicos para conter a infestação.

Os relatos foram reunidos em reportagem de Samanta do Carmo para a Mongabay Brasil.

A velocidade da invasão surpreendeu a ciência. Simulações publicadas em 2018 projetavam a chegada do Limnoperna fortunei à Amazônia só na década de 2030, com consolidação nos anos 2050. O primeiro registro, porém, veio em 2023, no rio Tocantins.

Um estudo publicado em 2026 na revista Actapesca encontrou o molusco em todos os municípios do Tocantins, no rio Pará e na Ilha do Marajó. Para os autores, os fatores usados nas projeções antigas não explicam a rapidez da dispersão. Outro trabalho, publicado na Communications Earth & Environment, inclui a bacia amazônica entre as regiões ainda não invadidas que têm condições favoráveis à espécie e risco crescente de invasão.

A Semas-PA tem registros ou observações em 13 municípios, de Marabá a Abaetetuba. Segundo a pesquisadora Maria Bentes, servidora da secretaria, os dados ainda não estão reunidos em um sistema oficial. “Tudo está em construção”, afirma.

Menos peixe, mais gasto

Pequeno, com cerca de 12 milímetros, o mexilhão se fixa em troncos, redes, cascos e tubulações e filtra a água. Com isso, retira também o alimento das espécies nativas, alerta Mara Rúbia Ferreira Barros, do Cepnor, centro vinculado ao ICMBio.

Em Goianésia do Pará, o pescador Dirceu Oliveira saía ao lago com a esposa quatro vezes por semana. Hoje vai uma vez a cada quinze dias e vende o peixe só por encomenda. “Só da pesca não tá dando pra sobreviver”, diz. Em Itupiranga, Josias Pereira de Sousa, da Colônia Z-44, descreve peixes “sem gordura, secos e magros”, sobretudo o mapará.

Perto de Jacundá, Roselen Leal Santana, a Kayrã, conta que o acúmulo do molusco nos cascos a obriga a calafetar as canoas duas ou três vezes por temporada. Antes, uma vez bastava.

Consumo sem resposta

Pescadores já encontram o invasor no interior do piau-flamengo e do beré. Como ainda não se sabe que toxinas o molusco pode carregar, a orientação dos pesquisadores é não comê-lo. Guilherme Mota da Silva, do IOC/Fiocruz, pondera que a presença de uma espécie não nativa não comprova, por si só, risco à saúde: “A detecção de uma espécie não nativa deve ser o início de uma investigação, e não uma conclusão sobre risco”.

Plano vencido e sem verba

Em dezembro de 2018, o governo federal lançou um plano de prevenção, controle e monitoramento do mexilhão-dourado. O plano definia as regiões hidrográficas Amazônica e Tocantins-Araguaia como prioritárias para evitar novas invasões. O documento previa uma rede interinstitucional de monitoramento e um banco de dados colaborativo, com prazo de cinco anos.

Um inventário publicado em abril de 2026 na Biological Invasions afirma que o plano “tem se mostrado ineficiente até agora”. O Ibama informou que a atualização do plano ainda é uma proposta, que usaria o Pará como projeto-piloto, e não tem prazo definido.

“A gente ainda não conseguiu fazer um monitoramento diário, ou semanal, ou mensal, dessa ocorrência”, admite Antônio Melo, analista ambiental do órgão. Segundo ele, quando o molusco avançou no estado, não havia recursos previstos para ações de remoção e controle.

A professora Cristiane Vieira da Cunha, da Unifesspa, atribui a chegada ao lago à circulação experimental de barcaças sem inspeção nem limpeza na eclusa de Tucuruí. Ela alerta que a expansão da Hidrovia Araguaia-Tocantins será “um impacto permanente” na dispersão da espécie. A AXIA Energia, que opera a usina, diz ter confirmado o molusco no reservatório em agosto de 2023. Desde então, segundo a empresa, monitora a espécie e limpa os equipamentos.

A aposta de longo prazo é um projeto da Bio Bureau, dentro do programa de P&D da Aneel. Ele usa a técnica gene drive para espalhar a infertilidade entre os mexilhões. Já existe um protótipo geneticamente modificado, mas ele ainda precisa passar por testes de eficácia e segurança.