Meio ambiente

Tráfico leva animais silvestres da Amazônia, incluindo espécies brasileiras, a mercado de Bangcoc

Acari-zebra do Xingu, araras e saguis estão à venda em Chatuchak, depois de uma rota que passa por Iquitos e usa licenças falsas
Arara-azul em primeiro plano sobre a floresta amazônica, ilustrando o tráfico de animais silvestres Amazônia

Acaris-zebra, peixes que só existem em um pequeno trecho do Rio Xingu, estão à venda no mercado de Chatuchak, em Bangcoc, capital da Tailândia. Araras, saguis, macacos-prego e capivaras também aparecem ali. São animais silvestres sul-americanos que chegam à Ásia por uma rota de tráfico que parte da Amazônia.

Em reportagem da Mongabay, editada por Xavier Bartaburu, Scott Roberton, da Wildlife Conservation Society, relata que o volume e a variedade dessas espécies no mercado cresceram nos últimos dois anos.

Segundo especialistas, boa parte dos animais deixa a floresta por Iquitos, no Peru, e chega ao Sudeste Asiático com licenças falsas que os fazem parecer legais.

“Mudou muito nos últimos dois anos. O volume é maior. A diversidade de espécies é maior”, afirma Roberton. Ele mora em Bangcoc e visita Chatuchak a cada poucas semanas para acompanhar as tendências do comércio global de fauna.

Nos corredores, ele passa por matamatás da bacia amazônica, tartarugas-do-chaco, araras-azuis e araras-vermelhas em gaiolas de arame, micos, quatis e maras. Na seção de peixes, pirararas, arraias e acaris-zebra ficam amontoados em sacos plásticos e aquários na calçada.

Como a fauna é “esquentada” no caminho

Nem todo animal vendido no mercado é ilegal. Mas muitas espécies latino-americanas têm exportação proibida nos países de origem e chegam à Ásia com documentos que aparentam legalidade. Em algum ponto da rota, entram de forma fraudulenta na cadeia legal de fornecimento.

O comércio entre países é regulado pela Cites, convenção que divide as espécies em três anexos conforme o grau de ameaça. Mais de 12 mil espécies amazônicas são protegidas pelo tratado, o que não impediu a saída das mais procuradas.

Iquitos como entreposto

O ponto central da rota é Iquitos, na Amazônia peruana, onde se encontram os rios Amazonas, Nanay e Itaya. Os animais chegam à cidade de barco e seguem de avião para Lima. A lei peruana permite exportar fauna de áreas de manejo ou de criadouros. Essa abertura facilita licenças falsas, classificações erradas de espécies e a mistura de animais capturados na natureza com os legais.

“Muitos produtos de diferentes países chegam a Iquitos e, portanto, é mais fácil esquentá-los no Peru”, diz Renata Cao, responsável pelos projetos da Traffic na América Latina.

Roberto Vieto, da Proteção Animal Mundial, diz que é difícil fiscalizar o comércio ao longo dos rios. “É por isso que Brasil, Colômbia e Peru precisam articular esforços.”

Redes sociais e uma viagem que mata

Os especialistas não sabem explicar com precisão o aumento, mas apontam o peso das redes sociais, com vídeos de pessoas acariciando espécies cada vez mais exóticas. Um levantamento publicado em setembro na Nature Reviews Biodiversity já mostrava a migração do comércio ilegal de fauna para plataformas como Facebook e Shopee. Para o pesquisador Neil D’Cruze, a banca do mercado é “apenas a parte visível de uma cadeia de fornecimento muito mais longa”.

Um estudo coordenado por D’Cruze registrou ao menos 71 espécies silvestres à venda nos mercados de Belén e Modelo, em Iquitos. Mais de um quarto delas estava ameaçada ou quase ameaçada. A pesquisa não comprovou uma rota direta até a Ásia, mas as mesmas espécies aparecem nas duas pontas.

Estresse e mortalidade

Do Peru ao Sudeste Asiático são mais de 25 horas de voo, com escalas. Um relatório feito para a União Europeia constatou que 70% dos animais silvestres morrem em até seis semanas após a captura. Em Chatuchak, uma loja anuncia preguiças, que meses antes tinham sido incluídas no Anexo II da Cites.

Em 2024, um incêndio no mercado matou mais de mil animais. Os vendedores voltaram com apoio das autoridades municipais e, segundo especialistas, o comércio de fauna cresceu desde então.