Garimpeiros armados invadiram o Parque Nacional do Juruena, no extremo norte de Mato Grosso, e atiraram contra agentes do ICMBio durante trabalho de monitoramento, obrigando a fuga da equipe — que inclui indígenas da etnia Apiaká.
O episódio expõe o avanço do garimpo ilegal dentro da unidade de conservação: a área desmatada pela mineração saltou 660% entre agosto de 2025 e abril de 2026, aponta relatório do MAAP baseado em imagens de satélite de alta resolução.
Preço do ouro dispara e atrai garimpeiros para áreas protegidas
A valorização do ouro no mercado internacional explica parte do avanço: o grama do metal saiu de cerca de R$ 200 em 2020 para R$ 820 atualmente, tornando lucrativa até a invasão de áreas de difícil acesso como o Juruena. Para Valter Glória, gestor do Núcleo de Gestão Integrada Serra do Cachimbo, a escassez de servidores também pesa. “Historicamente [o parque] tem poucos servidores atuando. Por isso eu atribuo também à pouca presença do Estado aqui no território”, afirma.
Em operação recente no extremo sul do parque, o ICMBio inutilizou pelo menos duas escavadeiras hidráulicas, uma serraria móvel e um barracão usado pelos garimpeiros. Encontrar os financiadores, porém, segue sendo o maior obstáculo. “Nunca o dono está ali… o cara que compra a máquina, os equipamentos, a alimentação e o resto necessário nunca está dentro do garimpo”, diz Glória. O padrão se repete em outras unidades de conservação: em maio, a Polícia Federal destruiu 14 escavadeiras hidráulicas e apreendeu mercúrio em operação contra o garimpo ilegal no Amapá, evidenciando a escala nacional do problema.
Suspeita de facções criminosas
Fontes locais apontam um agravante: a possível presença de facções criminosas entre os garimpeiros que atuam dentro do parque. Em fevereiro de 2026, um confronto entre policiais e supostos integrantes do Comando Vermelho ocorreu no Garimpo Juruena, próximo aos limites da unidade de conservação. Segundo relatos, o grupo estaria migrando de outras regiões do Mato Grosso após operações de fiscalização na Terra Indígena Yanomami e na Terra Indígena Sararé — nesta última, quem domina o garimpo é o próprio CV, que usa o ouro para lavar dinheiro e financiar outras atividades ilícitas.
Terra Indígena Apiaká sente o garimpo se aproximar
A Terra Indígena Apiaká Pontal e Isolados tem 100% do seu território sobreposto ao Parque Nacional do Juruena e aguarda regularização pela Funai desde o ano 2000. A Aldeia Matrinchã, a maior da TI, fica a poucos quilômetros da frente de garimpo que mais cresce na região. “Os indígenas da aldeia Matrinchã têm reportado que vêm sentindo o garimpo chegando perto… quando desligam o motor a diesel, começam a escutar o barulho das máquinas do garimpo”, relata o indigenista da OPAN Ricardo da Costa Carvalho. Segundo ele, balsas de garimpo entram no rio Matrinchã em busca da anuência das lideranças para avançar sobre novas áreas — um assédio constante. A pressão sobre territórios ainda não demarcados acompanha uma tendência nacional de aumento da violência contra povos indígenas desde a entrada em vigor do marco temporal, que atinge sobretudo áreas em processo de regularização como a dos Apiaká.
Mercúrio contamina rios e peixes
Estudo publicado na Springer Nature por pesquisadoras da UFSCAR encontrou concentrações de mercúrio no sedimento do Rio São João da Barra — principal afluente do Rio Juruena — de até 0,55 µg/g, acima do limite de 0,17 µg/g fixado pelo Conama. Em peixes usados na subsistência local, como o piau-três-pintas, a média chegou a 0,46 µg/g, próxima ao teto de 0,5 µg/g recomendado pela OMS para espécies não carnívoras. Enquanto o garimpo avança sobre parques e terras indígenas, o Congresso caminha em direção oposta: em maio, a Câmara aprovou projeto que reduz a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim, abrindo caminho para mais mineração na Amazônia.