A Petrobras identificou uma nova acumulação de petróleo no poço Morpho (identificado tecnicamente como 1-BRSA-1405-APS), a cerca de 175 quilômetros da costa de Oiapoque, no Amapá, em uma camada mais profunda do que a já perfurada em agosto. O anúncio foi feito nesta sexta-feira (2).
O poço fica no bloco FZA-M-59, na Margem Equatorial, em lâmina d’água de aproximadamente 2,9 quilômetros (2.886 metros, segundo a estatal). Segundo comunicado da estatal, a confirmação partiu da análise das rochas e de amostras de fluidos retiradas durante a perfuração. Em entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira (2), a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, confirmou que o óleo encontrado na nova camada é de boa qualidade. A executiva também destacou que, apesar do nome do bloco, a área perfurada fica a 540 quilômetros da foz propriamente dita do rio Amazonas.
O que a estatal já sabe e o que ainda falta medir
É a segunda confirmação de petróleo no mesmo poço. Em agosto, a companhia havia anunciado a primeira acumulação, cujas análises concluídas apontaram óleo de boa qualidade. Desta vez, a perfuração seguiu descendo e alcançou outro intervalo com presença de hidrocarbonetos.
Os estudos sobre essa nova camada continuam em andamento. As amostras coletadas vão para laboratório e os resultados serão cruzados com os demais dados obtidos no poço. Segundo Chambriard, a perfuração do Morpho ainda não foi concluída, com previsão de que os trabalhos no poço sejam finalizados até o fim deste mês.
A etapa decisiva, porém, é outra: dimensionar a possível reserva. Para isso, a Petrobras precisa concluir a perfuração e rodar estudos adicionais capazes de estimar quanto petróleo existe no local e se a exploração comercial se sustenta. A escala potencial do que está em jogo já tem números de referência: a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que a Bacia da Foz do Amazonas possa conter 5,7 bilhões de barris de petróleo recuperáveis — volume que, se confirmado, representaria um aumento de 33% nas reservas comprovadas de petróleo do Brasil e de até 55% nas da própria Petrobras. Para toda a Margem Equatorial, que reúne cinco bacias, a EPE projeta um potencial de 41 bilhões de barris, enquanto a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) trabalha com uma estimativa mais conservadora, de 30 bilhões de barris. Em outra métrica, que soma petróleo e gás natural, a EPE projeta até 10 bilhões de barris de óleo equivalente recuperáveis somente na Bacia da Foz do Amazonas; para dar a mesma régua de comparação, a ANP informa que o Brasil terminou 2025 com cerca de 70 bilhões de barris entre reservas provadas, prováveis e possíveis apenas de petróleo. Com até 6 bilhões de barris recuperáveis na região, petróleo Brent a US$ 70 e dólar a R$ 5,40, a FGV-IBRE calcula um valor bruto de aproximadamente R$ 3,8 trilhões.
O entusiasmo com a região não começou agora. Semanas antes desta descoberta, o presidente Lula já havia comparado o potencial da Margem Equatorial ao do pré-sal, citando justamente o Morpho como prova do que a área pode entregar. Em nota, a estatal afirma que a exploração do bloco integra uma estratégia de longo prazo para ampliar reservas de petróleo e gás e atender à demanda de energia do país, numa tentativa de compensar, no futuro, a queda esperada na produção do pré-sal, cujo pico é estimado entre 2034 e 2035.
A licença ambiental é o gargalo real
O bloco FZA-M-59 tem uma origem anterior à própria Petrobras: a área foi arrematada pela britânica BP em licitação realizada em 2013, e só em 2021, por decisão estratégica da multinacional, a concessão foi repassada à estatal brasileira. Nenhum desses planos avança sem o licenciamento ambiental. A Petrobras pediu autorização ao Ibama para perfurar novos poços na Margem Equatorial e, no caso do FZA-M-59, o processo prevê um poço principal e três contingentes. A licença concedida em outubro de 2025 libera apenas o Morpho — os demais seguem na fila de análise do órgão.
O histórico recente ajuda a entender o ritmo. O avanço atual só foi possível depois que o Ibama aprovou, em setembro de 2025, a simulação de emergência da companhia, etapa que destravou a perfuração do próprio Morpho. Mais recentemente, o órgão autorizou a perfuração de mais três poços na Bacia da Foz do Amazonas para avaliar a viabilidade comercial da área.
Recifes, manguezais e pesca no centro da disputa
A exploração da região é alvo de debate. Cientistas, organizações não governamentais e entidades ambientais apontam possíveis impactos sobre ecossistemas como recifes e manguezais, além de riscos para a pesca artesanal e para comunidades tradicionais. A Petrobras, por sua vez, sustenta que as perfurações são feitas de forma segura e com respeito ao meio ambiente e às populações da região.
Há ainda a discussão de fundo: como novos investimentos em petróleo se encaixam na transição para fontes de energia de menor emissão de carbono. Por ora, a descoberta amplia as perspectivas da Petrobras, mas o avanço da exploração continua condicionado à avaliação técnica e às exigências ambientais.