A população de baleias-jubarte que frequenta a costa brasileira passou de 1,5 mil a 2 mil animais, no início dos anos 1990, para mais de 35 mil, segundo estimativas do Instituto Baleia Jubarte, que completa 30 anos de trabalho a partir de Caravelas, no sul da Bahia.
Em entrevista à Agência Brasil durante uma expedição a Abrolhos, o fotógrafo Enrico Marcovaldi, cofundador do instituto, resumiu: “A população se recuperou de verdade”.
O desafio agora, dizem os pesquisadores, é medir como poluição e mudanças climáticas afetam a espécie.
Da caça à saída da lista de ameaçadas
Caçadas desde o período colonial, sobretudo para transformar a gordura em óleo de iluminação, as jubartes só tiveram a caça proibida em 1987, quando a espécie entrou na lista de animais em risco de extinção.
Um ano depois, durante a implantação do Parque Marinho de Abrolhos, pesquisadores encontraram uma pequena população sobrevivente no arquipélago. Dali nasceu o Projeto Baleia Jubarte, criado por Marcovaldi e pela bióloga Márcia Engel e formalizado como instituto em 1996, já com patrocínio da Petrobras. Em 2014, a jubarte deixou a lista de espécies ameaçadas.
Hoje, a principal contagem é feita por sobrevoo do litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte. O recorde de mais de 35 mil animais é da estimativa de 2022; o cálculo deste ano ainda está em andamento e deve ficar um pouco abaixo. Marcovaldi diz que isso não indica retrocesso: “As temporadas são cíclicas. Em algumas você vê mais baleias, em outras você vê menos”.
A virada de uma espécie que estava à beira da extinção já tinha sido tema do Tropiquim em reportagem sobre machos disputando fêmeas em Abrolhos, o maior santuário reprodutivo do Atlântico Sul.
A cauda como impressão digital
Cada jubarte tem um desenho único na cauda. As fotos do instituto já permitiram identificar mais de 10 mil indivíduos e hoje alimentam uma plataforma colaborativa internacional que usa inteligência artificial para checar se a marca pertence a um animal já registrado no Brasil ou em outro lugar.
Foi comparando essas imagens que os pesquisadores encontraram, em 2006, correspondências entre baleias fotografadas aqui e nas ilhas Geórgia do Sul e Sandwich do Sul, na Antártica. Uma biópsia ainda revelou parentesco do tipo mãe e filho com um animal já amostrado no Brasil, segundo o diretor de Pesquisas, Milton Marcondes. A conclusão: o litoral brasileiro é a área de acasalamento e parto; o entorno das ilhas, o “refeitório”.
Clima, lixo e navios no radar
Para o diretor-executivo Eduardo Camargo, a missão atual é “harmonizar a atividade humana com a conservação”. “O lixo impacta o oceano inteiro, que está coberto de microplástico. A questão climática afeta a disponibilidade de alimento”, afirma.
Na UFSC, a mestranda Laura Aguiar analisa imagens de drone captadas desde 2018 para avaliar a condição corporal dos animais. Bruna Baleeiro, da mesma universidade, revisa mais de 30 anos de fotoidentificação e já observa que a temperatura na superfície da Antártica pode afetar a sobrevivência das baleias ao reduzir a oferta de krill, seu principal alimento.
Os efeitos possíveis já aparecem na reprodução desta temporada. Segundo a Agência Brasil, que ouviu o diretor de Pesquisas do instituto, Milton Marcondes, até setembro os filhotes representaram apenas 3,35% das baleias avistadas, bem abaixo da média histórica de 9,98% registrada desde 2014. A taxa bruta de natalidade foi de 10,7% em toda a temporada do ano passado, e o recorde, de 16,69%, é de 2024. Para Marcondes, as mudanças climáticas podem estar reduzindo a disponibilidade de krill na Antártida: “Baleias que não se alimentam direito, quando vêm acasalar, não têm tanta fertilidade, ou a fêmea em gestação corre o risco de perder o filhote”. Ele afirma que a queda de nascimentos também ocorreu com as jubartes do Pacífico, na costa do Equador, e nas da costa oeste e leste da Austrália.
Os dados de natalidade vêm do monitoramento diário feito por pesquisadores do instituto a bordo de uma barcaça que transporta celulose entre Belmonte (BA) e Barra do Riacho (ES), método que Marcondes considera mais confiável para estatísticas anuais, por seguir sempre o mesmo trajeto e período. Em 11 cruzeiros científicos a Abrolhos, foram contados 431 animais, 42 deles filhotes, proporção também abaixo da esperada. A contagem por sobrevoo deste ano, segundo o pesquisador, deve mostrar menos indivíduos e filhotes; ele ressalta que flutuações são comuns, mas que é preciso entender o que afeta a reprodução.
Com menos filhotes, a temporada também termina mais cedo. As jubartes costumam chegar em junho, com pico entre julho e outubro, e partir até novembro; quem segura a permanência são os filhotes, que precisam crescer e ganhar gordura para a migração de volta. Os encalhes igualmente fogem do padrão: foram 59 neste ano, contra 78 no anterior, mas com mais casos de animais jovens e concentração em Santa Catarina e São Paulo, e não no Espírito Santo e na Bahia. Marcondes alerta que, se o problema com o krill persistir, pode haver mortalidade atípica no ano que vem, porque o efeito costuma ser cumulativo.
Além do lixo e do clima, o ruído de navios e da prospecção de petróleo também interfere na comunicação e na navegação de cetáceos.
Financiamento da Petrobras
A estatal, principal financiadora do instituto, repassou cerca de R$ 30 milhões no ciclo atual, de quatro anos. Segundo o gerente de Projetos Ambientais da empresa, Gregório Maciel, os dados do monitoramento levaram a Petrobras a redesenhar a rota de embarcações do Terminal Aquaviário de São Sebastião (SP) para evitar o trajeto migratório das jubartes.
Com mais baleias na costa, cresce também o risco de colisões, e uma pesquisa na Grande Vitória vai usar transmissores de satélite para mapear onde as rotas se cruzam.