Mais de 400 exemplares de peixe-leão foram retirados do mar em Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, nas últimas semanas — e a espécie já teve presença confirmada dentro do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.
Originário do Indo-Pacífico e sem predadores naturais no Atlântico, o peixe-leão (Pterois volitans) foi avistado na região pela primeira vez em junho. Desde agosto, a prefeitura executa um Plano Municipal de Enfrentamento à bioinvasão.
Um predador voraz no berçário dos recifes
O maior risco não está no veneno dos espinhos, e sim no apetite do invasor: ele devora filhotes de espécies nativas e crustáceos em um ritmo que as populações locais não conseguem repor.
“Ao predar filhotes de espécies comercialmente exploradas, há uma depleção das populações pesqueiras. Isso traz consequências graves para o ecossistema, afeta a economia da pesca e prejudica o turismo em recifes degradados”, disse à Mongabay Brasil, em reportagem de Samanta do Carmo, o biólogo Carlos Hackradt, coordenador do Laboratório de Ecologia e Conservação Marinha (Lecomar) da Universidade Federal do Sul da Bahia.
A chegada do peixe acontece sobre um ecossistema que já vinha cambaleando: um levantamento recente identificou branqueamento em mais de 90% dos corais monitorados no país, fragilizando justamente os recifes que agora servem de abrigo ao invasor.
O avanço pode não parar na Bahia
Para Hackradt, a geografia do litoral brasileiro joga a favor da espécie. “A nossa costa possui uma plataforma continental extensa e cheia de recifes que servem de abrigo”, afirma. As projeções, segundo ele, apontam um caminho longo pela frente: “Esses animais são capazes de chegar até São Paulo, Paraná e até o norte de Santa Catarina”.
R$ 10 por peixe capturado — e a aposta no prato
A força-tarefa reúne a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Causa Animal (Semac) e pescadores da Colônia Z-22. Ao todo, foram recolhidos 440 animais no litoral de Porto Seguro, dos quais 430 seguiram congelados para o Lecomar/UFSB, onde passam por análise de biometria e de conteúdo estomacal.
O plano paga R$ 10 por peixe entregue e estuda empurrar o pescado para a rede comercial. O consumo humano é seguro, segundo o pesquisador: “O animal não traz veneno na carne. A substância fica armazenada em glândulas ligadas aos 18 espinhos, e a proteína é desnaturada com o calor no cozimento”.
Em Abrolhos, o tamanho do estrago ainda é incógnita
É no mesmo santuário que se tornou símbolo da recuperação das baleias-jubarte no Atlântico Sul que pesquisadores agora monitoram os primeiros registros do invasor. Faltam, porém, dados consolidados para medir o impacto.
“A gente ainda não sabe a dinâmica que esse processo vai ter aqui. Acabou de acontecer, estamos construindo as primeiras informações no extremo sul para entender a gravidade e indicar às autoridades quais medidas são factíveis”, pondera o biólogo. Sem registro científico de erradicação total da espécie em lugar nenhum onde ela se instalou, controle populacional e monitoramento contínuo seguem como as únicas saídas de manejo.