Meio ambiente

Governo libera pesca na foz do Rio Doce, no ES, dez anos após desastre de Mariana

Decisão se apoia em nota técnica da Anvisa que não viu risco no consumo de pescados; retomada terá plano de monitoramento
Vista aérea do Rio Doce com águas calmas e mata verde, ilustrando a pesca liberada na foz do Rio Doce no Espírito Santo

Pescadores do Espírito Santo voltam a poder trabalhar na área marinha próxima à foz do Rio Doce, entre Aracruz e Linhares, após dez anos de proibição.

A decisão dos ministérios da Pesca e Aquicultura (MPA) e do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) foi divulgada nesta sexta-feira (30). Ela se baseia em nota técnica da Anvisa que não apontou perigo no consumo do pescado da região.

Com a medida, peixes, moluscos e crustáceos capturados ali podem voltar a ser vendidos e consumidos. A pesca estava suspensa por causa do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

O que diz a nota técnica

De acordo com o documento, que reúne dados de monitoramento ambiental e da atividade pesqueira, não foi identificada presença de chumbo e mercúrio acima do limite máximo tolerado por normas nacionais e internacionais nas áreas de água doce, marinha e de mangue.

Para cobre, cromo, ferro, níquel, manganês e zinco, os níveis detectados ficaram dentro da média, segundo a nota.

O MPA afirma ainda que a água e os sedimentos do Rio Doce seguem sob monitoramento contínuo do Programa de Monitoramento Quali-quantitativo Sistemático de Água e Sedimento (PMQQS). Segundo a pasta, o programa não reportou alertas de não conformidade.

Regras para a retomada

A Portaria nº 75/2026 determina que a pesca profissional na área delimitada seja feita por pescadores e embarcações regularizados, quando a legislação exigir. O pagamento do Programa de Transferência de Renda (PTR) não muda com o novo ordenamento.

Segundo o ministério, continuam valendo as normas sobre defeso, áreas com restrição à pesca, espécies protegidas, tamanhos mínimos de captura, modalidades permitidas, equipamentos e medidas para reduzir a captura incidental. A fiscalização caberá aos órgãos competentes.

A retomada será acompanhada por um Plano de Ação Integrado, coordenado por MPA e MMA em articulação com o Ministério da Saúde, a Anvisa e instâncias de gestão participativa. O plano prevê implementação, monitoramento e avaliação da atividade e pode ser revisto conforme os resultados, novas informações técnicas e científicas e a participação das comunidades pesqueiras.

Uma década de proibição

A suspensão por tempo indeterminado foi determinada em 2016 pela Justiça do Espírito Santo, a pedido do Ministério Público Federal (MPF). Na época, o órgão argumentou que faltavam estudos conclusivos sobre a contaminação de peixes, moluscos e crustáceos da região pelos rejeitos da barragem de Fundão, da Samarco.

A estrutura se rompeu em 5 de novembro de 2015 e despejou de 40 milhões a 55 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração de ferro, contaminando toda a Bacia do Rio Doce. A lama soterrou os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, e 19 pessoas morreram.

De acordo com o MPA, a liberação da pesca não substitui nem afasta as obrigações de reparação, recuperação e monitoramento previstas no acordo judicial relacionado ao desastre. A reparação segue em andamento: em setembro de 2025, o governo instalou um conselho de participação social para fiscalizar os repasses do acordo de R$ 170 bilhões firmado em 2024.