Economia

Ibovespa despenca 16% e tem maior queda desde o Plano Collor após reeleição de Lula

Índice chegou a cair 16,26% e fechou em baixa de 13,88%; circuit breaker suspendeu negócios por 30 minutos e dólar fechou em alta de 8,21%, a R$ 5,403
Painel da B3 com cotações em queda após a queda Ibovespa reeleição Lula, em ambiente de bolsa de valores

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O Ibovespa teve nesta segunda-feira (26) uma das maiores quedas em mais de três décadas. Às 10h56, o principal índice da bolsa brasileira recuava 16,26%, aos 171.738,28 pontos, no primeiro pregão após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No fechamento, a perda ficou em 13,88%, aos 176.608 pontos.

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A queda fez a B3 acionar o circuit breaker por volta das 10h, o que suspendeu as negociações por 30 minutos. Lula venceu Flávio Bolsonaro no segundo turno, no domingo (25), e vai para o quarto mandato.

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Pior pregão desde 1990

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Na comparação histórica, a queda registrada na máxima do dia só perdeu para a de 21 de março de 1990, quando a Bolsa recuou 22,27% após o anúncio do Plano Collor. Desde então, o mercado brasileiro de ações não registrava um tombo dessa proporção em um único pregão.

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Levantamento da Elos Ayta, que considera as quedas desde o Plano Real, mostra que o recuo desta segunda, no momento mais agudo, superou a maior perda diária do período: os 15,83% de 10 de setembro de 1998, em meio aos problemas financeiros da Rússia e à fuga de capital dos mercados emergentes. Na sequência da lista aparecem a queda de 14,98% de 27 de outubro de 1997, durante a crise asiática, e quatro pregões de março de 2020, no auge da pandemia de covid-19, com perdas de 14,78% (dia 12), 13,92% (dia 16), 12,17% (dia 9) e 10,35% (dia 18). Com a perda de 13,88% no fechamento, o índice terminou o dia abaixo do pico da queda registrado pela manhã. Segundo a Gazeta do Povo, o recuo chegou a 17,34% no pior momento do pregão, com a mínima em 169.516 pontos.

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O fechamento aos 176.608 pontos é o menor desde 31 de agosto, e o volume financeiro do pregão somou R$ 88,6 bilhões, muito acima da média diária de cerca de R$ 25 bilhões. Com o tombo, o índice passou a acumular queda de 5,22% em outubro, mas ainda mantém valorização de 9,61% em 2026, de acordo com a Agência Brasil.

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Segundo a Elos Ayta, nove das dez maiores quedas diárias anteriores a esta segunda tiveram origem no cenário internacional. A única ligada a um fato político doméstico foi a de 5 de setembro de 1994, quando o índice recuou 10,50% após as declarações do então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, no episódio conhecido como escândalo da parabólica. “Embora acontecimentos políticos nacionais possam provocar oscilações expressivas, os episódios mais extremos de desvalorização da Bolsa brasileira estiveram predominantemente associados a crises internacionais”, afirmou a empresa. A reação desta segunda, portanto, foge ao padrão histórico.

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Ainda no domingo à noite, o EWZ, fundo que replica ações brasileiras em Nova York, já recuava cerca de 19% no after-hours, antecipando a reação que a B3 confirmaria na abertura desta segunda.

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Como funciona o mecanismo

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A interrupção das negociações é uma ferramenta prevista nas regras da própria bolsa. “O circuit breaker é um procedimento operacional da B3 previsto para momentos de forte queda do mercado. O mecanismo interrompe temporariamente as negociações e tem como referência a variação do Ibovespa B3, principal índice do mercado brasileiro de ações”, informou a B3.

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Pelas regras, a suspensão de 30 minutos ocorre quando o índice recua mais de 10% em relação ao fechamento anterior, e uma nova interrupção pode ser acionada se a queda atingir 15%. Para o pregão desta segunda, a B3 anunciou um limite de 20% para o segundo acionamento. A última vez que a bolsa havia acionado o mecanismo foi em março de 2020, quando as interrupções ocorreram seis vezes em meio à turbulência provocada pela pandemia.

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Dólar também dispara

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O câmbio acompanhou o movimento de aversão ao risco. O dólar disparou 12,52% e, às 9h30, era negociado a R$ 5,605. Ao longo do dia, a moeda perdeu parte da força: fechou a R$ 5,403, em alta de 8,21%, com mínima de R$ 5,392 e máxima de R$ 5,605. Foi a maior valorização percentual diária da moeda americana desde 13 de janeiro de 1999, período de mudanças no regime cambial brasileiro. Segundo a Agência Brasil, o recuo em relação à máxima refletiu a realização de lucros e a entrada de recursos de exportadores, que aproveitaram a alta para internalizar divisas. Na sexta-feira (23), a moeda americana oscilava em torno de R$ 4,97 a R$ 4,98; mesmo com o salto, o dólar acumula alta de 4,40% em outubro e queda de 1,57% em 2026.

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Os juros futuros também subiram com força, e alguns contratos chegaram aos limites de oscilação da B3. A curva de juros avançou mais de 260 pontos-base em média, e em alguns contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) a alta chegou a três pontos percentuais, o que pressionou ainda mais os papéis ligados ao consumo. Diante da disparada das taxas, o Tesouro Nacional fez uma operação de recompra de títulos públicos que movimentou cerca de R$ 7,1 bilhões, com 8,4 milhões de títulos prefixados, para reduzir a pressão sobre os preços dos papéis.

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Parte do tombo no câmbio é atribuída à falta de proteção. Para Rodrigo Miotto, da Nippur Finance, muitos importadores não estavam protegidos por operações de hedge, pois confiavam nas pesquisas e no resultado do primeiro turno e previam queda do dólar. “O impacto foi expressivo”, afirmou.

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Mercado corta expectativas para os próximos quatro anos

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Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, a reeleição levou os investidores a cortar “suas expectativas para mais 4 anos do mesmo perfil de governo”.

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Segundo o economista, esse pessimismo explica a intensidade da reação em diferentes mercados ao mesmo tempo. “Com as expectativas tão baixas, o mercado retira suas apostas do Brasil e prefere vender as ações a qualquer preço para poder remeter dólar daqui. Por isso, o movimento é muito forte de queda nas bolsas, alta do dólar e alta expressiva nos juros”, afirmou.

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A vitória de Lula, com 51,78% dos votos válidos contra 48,22% de Flávio Bolsonaro (PL), surpreendeu o mercado, já que o senador terminou o primeiro turno à frente e também liderava as pesquisas do segundo. Os investidores esperavam que um eventual governo de Flávio fosse mais disciplinado com as contas públicas, e passaram a reavaliar as perspectivas para política fiscal, juros e câmbio. Segundo Alexandre Viotto, chefe de banking da EQI Investimentos, como boa parte do mercado trabalhava com a vitória da oposição como cenário-base, houve uma rápida mudança de posicionamento, com investidores desmontando posições e ajustando carteiras à nova realidade política.

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Entre as ações do índice, as perdas foram ainda mais profundas. De acordo com levantamento do g1, a Magazine Luiza liderava a lista de maiores quedas, com recuo de 58,23%, seguida por Vamos (-56,79%) e Hapvida (-54,93%). Papéis ligados ao consumo, ao varejo e ao mercado imobiliário também registraram baixas expressivas.

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A queda dos ativos também atingiu o patrimônio dos maiores investidores do país. Segundo dados publicados pelo Valor Econômico, os quatro maiores banqueiros brasileiros perderam cerca de US$ 10 bilhões, o equivalente a 18% de seu patrimônio combinado. André Esteves, fundador do BTG Pactual, teve a maior perda individual, de US$ 4,4 bilhões, cerca de 30% de sua fortuna. Já os dez brasileiros entre as 500 pessoas mais ricas do mundo acumulavam perdas de US$ 15 bilhões até o meio-dia, no horário de Nova York, a maior queda diária do patrimônio desse grupo desde a criação do Bloomberg Billionaires Index, em 2012.

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Além das dúvidas fiscais, a possibilidade de questionamentos judiciais sobre o resultado é vista como fator de incerteza. O ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin determinou a prorrogação da votação até as 19h, em razão de problemas no deslocamento de eleitores em diferentes cidades, decisão que as campanhas de Lula e de Flávio haviam pedido. Após a derrota, Flávio Bolsonaro chegou a falar em anulação do pleito e depois disse que pediria a cassação da chapa Lula-Alckmin.

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Do lado do governo, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda, em entrevista ao Broadcast, que a gestão pretende mudar a legislação ou a Constituição ainda neste ano para buscar o centro da meta fiscal. Segundo ele, a proposta pode esclarecer as regras para o contingenciamento de despesas e permitir ajustes nos gastos nos dois últimos meses de 2026.

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Para os próximos dias, analistas preveem que a volatilidade continue, pelo menos até que o governo dê sinais mais claros sobre a política econômica do quarto mandato. “A normalização não deve acontecer de uma hora para outra, nem necessariamente ao mesmo tempo para todos os mercados”, afirmou Viotto, para quem o ponto de inflexão virá quando os investidores enxergarem maior previsibilidade. Ele avalia que a escolha do novo ministro da Fazenda pode influenciar o humor do mercado e que a confiança dependerá de medidas concretas, como um compromisso crível com o ajuste fiscal e metas consistentes de resultado primário.

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O cenário é o oposto do registrado após o primeiro turno, quando o Ibovespa saltou 7,7% e passou pela primeira vez dos 200 mil pontos com Flávio Bolsonaro à frente na apuração.

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