O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) suspendeu a apuração do segundo turno das eleições de 2026 neste domingo (25). A pausa veio depois que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou prorrogar a votação até as 19h, horário de Brasília, em todo o país.
A totalização foi retomada depois do novo horário de encerramento, às 19h. A medida atendeu a um pedido da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que relatou dificuldades de eleitores com o transporte público em municípios da Bahia.
Apuração parou com 0,25% das urnas
A contagem já tinha começado quando a decisão chegou. Às 17h06, o TSE divulgou o primeiro boletim, com 0,25% das urnas apuradas. Até ali, 499.248 seções haviam sido totalizadas, com comparecimento de 345.054 eleitores. Os números ficaram congelados até a retomada.
Na decisão, Zanin citou a “gravidade dos fatos narrados” pela campanha petista, que apontou problemas no transporte coletivo usado pelos eleitores para chegar aos locais de votação. O pedido da campanha de Lula começou restrito a três cidades baianas e depois passou a citar falhas em pelo menos nove estados.
Ônibus retidos em Salvador
O caso mais grave aconteceu na capital baiana. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) chegou a mandar prender o secretário de Mobilidade Urbana de Salvador, Pablo Souza, depois da retenção de pelo menos 75 ônibus do transporte coletivo municipal que estavam com adesivos do PT.
Alcance nacional da decisão
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) também havia solicitado ao TSE a prorrogação do horário em 17 municípios de São Paulo, do Paraná e de Santa Catarina. Segundo a Agência Brasil, o partido citou as fortes chuvas registradas no domingo e o pedido também mencionava cidades de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul. A ordem de Zanin, porém, foi além dos dois pedidos e valeu para todas as cidades do Brasil.
A prorrogação não foi consensual. Antes da ordem do STF, o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, pediu a manifestação do Ministério Público Eleitoral (MPE) e concedeu prazo de meia hora. Em parecer enviado ao TSE às 17h01 e assinado pelo vice-procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa Bravo Barbosa, o MPE se posicionou contra a extensão e defendeu o encerramento no horário legal, às 17h. O órgão também pediu a apuração das irregularidades relatadas no transporte de eleitores, com eventual responsabilização dos envolvidos por abuso de poder, caso fosse comprovado prejuízo à legitimidade do pleito. Prevaleceu, no entanto, a determinação de Zanin.
Segundo apuração do g1, a sequência dos fatos gerou críticas dentro do próprio TSE. Técnicos do tribunal haviam recomendado manter o encerramento às 17h enquanto não chegassem dados mais concretos sobre as situações relatadas, como as da Bahia, e Nunes Marques pediu informações ao TRE-BA por volta das 16h. Antes de haver definição no TSE, a campanha de Lula recorreu ao STF, às 15h46; Zanin foi sorteado relator às 16h29, e a decisão foi divulgada à imprensa às 17h03. Ministros alinhados a Zanin avaliam que o presidente do TSE demorou a resolver um problema que estava posto havia horas e que a Justiça não poderia se omitir diante da gravidade dos fatos.
A ampliação criou problemas na prática. Parte das seções, como em São Paulo, já tinha encerrado os trabalhos e recolhido as urnas, que não podem ser reabertas, e por isso alguns eleitores podem ter ficado sem votar. Nunes Marques reuniu ministros do TSE em caráter de emergência para discutir cenários, enquanto os TREs informavam que não havia como cumprir a ordem nas seções já fechadas.
Mais tarde, Zanin esclareceu que a extensão vale apenas para as seções com urnas ainda abertas, o que define o alcance real da prorrogação da votação. O ajuste foi combinado em telefonema entre Nunes Marques e Zanin, segundo o g1. Na sequência, o presidente do TSE enviou ofício aos presidentes dos tribunais regionais eleitorais (TREs) pedindo providências para cumprir a ampliação. No documento, ele orientou que as seções ainda abertas permaneçam em funcionamento até as 19h, “em estrito cumprimento à determinação judicial”. Com a retomada da totalização depois das 19h, o resultado do segundo turno saiu mais tarde que o previsto.
Na noite de domingo, Nunes Marques explicou os efeitos da decisão sobre o trabalho da Justiça Eleitoral. Ele disse que recebeu o pedido de prorrogação por volta das 15h30 e buscou informações técnicas junto ao TRE-BA, às prefeituras envolvidas e às equipes do TSE. Segundo o ministro, não havia norma que autorizasse a prorrogação e não seria possível, em poucas horas, ter certeza de que a decisão não teria efeito colateral, especialmente tecnológico, sobre a apuração.
Para impedir que servidores e integrantes do tribunal tivessem acesso aos resultados durante o período de prorrogação, foi preciso bloquear o recebimento dos boletins de urna de todo o país. “Não sabíamos, ao certo, se teríamos armazenamento, a capacidade de armazenar todos esses dados”, afirmou. Ele disse que as dificuldades foram superadas, que a decisão foi cumprida nos termos em que foi proferida e que não houve comprometimento da apuração. Nunes Marques ressaltou que a fala não era uma crítica à decisão judicial, mas uma resposta aos questionamentos sobre a demora na análise do pedido, e acrescentou que “prorrogar uma eleição é possível, mas ela tem que ser pensada, ela tem que ser calculada e estruturada”.
No mesmo pronunciamento, o presidente do TSE informou que a Justiça Eleitoral chegou ao resultado matemático que definiu a reeleição de Lula, com mais de 64 milhões de votos. Com 99,9% das urnas apuradas, mais de 128 milhões de eleitores haviam comparecido, de um total de mais de 158 milhões aptos a votar. A abstenção foi de 19,21%, abaixo dos 21,08% do primeiro turno. Segundo o ministro, 1.551 das 499.248 urnas (0,31%) precisaram ser substituídas.
Na prática, a medida teve efeito limitado e provocou frustração. Segundo reportagem da Agência Brasil, que ouviu eleitores e mesários, muitos que tentaram votar depois das 17h encontraram portões fechados. No Colégio Pensi, no Flamengo, no Rio de Janeiro, pelo menos sete pessoas chegaram após o fechamento e receberam uma Declaração de Comparecimento sem Voto, documento assinado pelo presidente da seção que atesta que o eleitor foi ao local e não conseguiu votar. Uma delas, a contadora Manuela Tunas, que viajou do Uruguai para votar e pousou às 17h por causa de um atraso no voo, chamou a situação de “um absurdo”, por haver seções abertas e outras fechadas.
Houve também falha na circulação da informação. Em Samambaia Sul, no Distrito Federal, a presidente de seção Bruna Lourenço relatou à Agência Brasil que só soube da prorrogação depois de concluir o fechamento da urna e a impressão dos boletins. De acordo com o TRE-DF, as urnas do DF foram fechadas às 17h em ponto, antes que a informação chegasse a mesários e presidentes de seção. Já nas seções que permaneceram abertas houve pouco movimento: em São Paulo, o mesário Lucas Suassuna, da seção 309 da 6ª Zona Eleitoral, estimou que no máximo três ou quatro pessoas votaram após a prorrogação.
Ministros do TSE divergem, de forma reservada, sobre o impacto real da extensão do horário. Para medi-lo, técnicos do tribunal devem iniciar, a partir de segunda-feira (26), estudos que comparam quantos eleitores se registraram depois das 17h com o mesmo dado do primeiro turno e quantas urnas funcionaram após esse horário. Segundo o g1, não há prazo para a conclusão das análises.