Política

MPF dá 48 horas para Meta explicar bloqueio automático de 206 mil posts na eleição

Procuradoria cobra revisão humana e canal gratuito para contestar restrições antes do segundo turno, marcado para domingo (25)
Sede do MPF em Brasília ao lado do logo da Meta, ilustrando o bloqueio de posts Meta eleições

O Ministério Público Federal deu 48 horas para a Meta, dona de Instagram, Facebook e WhatsApp, dizer se vai rever o bloqueio automático de publicações nas eleições de 2026. De 1º a 5 de outubro, no primeiro turno, a empresa restringiu 206.910 conteúdos.

A recomendação foi feita na quarta-feira (21) pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão. O órgão considerou insuficientes as justificativas da empresa, que disse seguir regras de silêncio eleitoral e de identificação de inteligência artificial em posts políticos.

A plataforma também terá de entregar um relatório conclusivo em até 30 dias.

O que a Procuradoria exige da Meta

O órgão quer que a empresa dependa menos de sistemas automáticos para decidir o que circula nas redes. Entre as medidas recomendadas estão:

  • revisão humana de bloqueios originados de denúncias em massa ou de enquadramentos em infrações graves;
  • restabelecimento imediato de posts e contas quando houver erro;
  • aviso individualizado ao usuário sobre o motivo e a duração da restrição;
  • canal gratuito e de fácil acesso para contestar bloqueios, com análise humana;
  • auditoria independente dos algoritmos de moderação.

O MPF também levou o caso à Justiça Federal de Porto Alegre (RS) por meio de uma ação civil pública. O pedido é que decisões de bloqueio não fiquem só a cargo de algoritmos e que os recursos sejam analisados por equipes humanas especializadas. Em caso de descumprimento de determinação judicial, a multa prevista é de R$ 500 mil por dia, por conta. Na véspera, o MPF já havia pedido que a Justiça obrigasse a Meta a reativar em 24 horas perfis bloqueados durante a eleição, entre eles os de entidades estudantis, veículos independentes e movimentos sociais.

Mais de mil relatos de usuários

A atuação começou depois de representações das organizações Artigo 19, Conectas Direitos Humanos, Sleeping Giants Brasil e CTRL+Z. Juntas, elas reuniram mais de 1.000 relatos de posts removidos, contas suspensas e alcance reduzido durante a campanha.

Entre os atingidos estão veículos de comunicação, jornalistas, entidades estudantis, movimentos sociais e cidadãos comuns. Segundo o MPF, parte das restrições foi aplicada sem justificativa individualizada ou com enquadramento indevido em categorias graves, como terrorismo e exploração sexual infantil.

A versão da Meta

Em comunicado atualizado também na quarta-feira, a Meta afirmou que restringe conteúdos gerados ou alterados por IA para cumprir uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral. Segundo a empresa, aplicativos de edição de imagem, vídeo e áudio podem gravar nos arquivos sinais técnicos que indicam uso de IA. A rede detecta esses marcadores automaticamente e oculta o conteúdo no Brasil.

A Meta diz que as restrições ligadas à regra eleitoral valem até as 23h59 de segunda-feira (26). Depois disso, os posts ocultados voltam a ficar visíveis.

O comunicado não diz se todos os bloqueios passam por revisão humana nem como o sistema diferencia uma edição simples de um conteúdo sintético proibido pelo TSE. Procurada pelo Poder360 sobre os critérios, a revisão humana e a reversão de bloqueios indevidos, a empresa não respondeu até a publicação da reportagem.

Pressão acumulada

A investigação do MPF começou antes da restrição temporária a conteúdos com IA para o segundo turno, em vigor desde 22 de outubro, e também examina outras práticas de moderação adotadas na campanha. A cobrança vem um dia depois de o Conselho de Supervisão da Meta apontar falhas recorrentes na moderação eleitoral e pedir regras mais claras e consistentes.

Antes disso, o TSE já havia dado 48 horas para a Meta comprovar tratamento igual às publicações das campanhas de Lula e de Flávio Bolsonaro no segundo turno.