O ministro Marco Aurélio Bellizze, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), deu 48 horas para a Meta comprovar que trata da mesma forma as publicações das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026.
A decisão, assinada neste sábado (10), intima a plataforma a responder à representação da coligação Brasil Pronto pra Mais, que acusa a empresa de “seletividade algorítmica” para silenciar conteúdos do campo progressista sem explicar seus critérios.
Rede de perfis com IA está no centro da queixa
A coligação formada por PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, Psol e Rede afirma que a Meta se omitiu diante de uma rede de 255 perfis no Instagram operados por inteligência artificial, que teria somado 58 milhões de visualizações em um mês simulando apoio ao adversário e disparando ataques a Lula, ao PT e à primeira-dama Janja da Silva.
A representação também cita relatórios do projeto VigIA, da Agência Lupa, segundo os quais 61 de 64 conteúdos sintéticos vedados identificados no início de outubro ainda estavam no ar em 7 de outubro. A equipe petista aponta “anomalias” nas métricas de vídeos publicados naquele dia e contesta a desativação da conta de anúncios da campanha, em 23 de setembro.
A coligação já havia acionado o TSE um dia antes, quando acusou a plataforma de reduzir o alcance de publicações favoráveis ao petista e cobrou tratamento isonômico entre as candidaturas.
O que o relator mandou a empresa entregar
Bellizze reconheceu que as provas iniciais são em grande parte indiretas — reportagens, estudos de entidades civis e relatos de usuários — e concluiu que o caso exige instrução técnica antes de qualquer liminar. A Meta deve preservar logs de moderação, métricas e registros de anúncios ligados ao caso; detalhar toda medida restritiva aplicada desde 16 de agosto aos perfis da candidatura e de aliados; esclarecer os critérios de contagem e eventuais recontagens de visualizações dos vídeos de 7 de outubro; justificar a desabilitação da conta de anúncios; e informar o que fez em relação à rede automatizada apontada na ação.
Isonomia entre as duas campanhas é o ponto decisivo
O item mais sensível da decisão pede a descrição técnica de como a empresa aplicou as regras de exclusão de perfis de candidatos de seus sistemas de recomendação — e se o tratamento foi idêntico para as duas candidaturas do segundo turno. É nesse trecho que a resposta deixa de ser apenas sobre Lula e passa a alcançar também o adversário.
No mesmo prazo de 48 horas, a Agência Lupa e o Instituto Democracia em Xeque foram oficiados para apresentar as metodologias e a relação de materiais dos levantamentos citados na petição. Depois da resposta da plataforma, a coligação e a Procuradoria-Geral Eleitoral terão 24 horas sucessivas cada para se manifestar; só então os autos voltam ao relator para a apreciação da liminar. Por envolver dados técnicos internos e registros de terceiros, o ministro decretou sigilo sobre o que a empresa enviar.
Em nota enviada à imprensa neste domingo (11), a Meta reconheceu ter enfrentado “problemas técnicos”, mas classificou as acusações da campanha como “falsas” e disse que elas “não encontram respaldo nos fatos”. A empresa afirmou que boa parte das falhas mencionadas não atingiu exclusivamente contas brasileiras ou perfis específicos, reiterou que cumpre as normas eleitorais e disse estar “comprometida com a isonomia” no uso de suas plataformas por todos os usuários.
Em nota própria, o PT classificou o episódio como evidência de “interferência” da Meta no processo eleitoral e do controle que empresas transnacionais exercem sobre a infraestrutura de comunicação — controle que, segundo o partido, “coloca em xeque” a cidadania e a democracia quando usado para manipular a percepção pública ou tentar determinar o resultado de eleições. A campanha de Lula lista cinco episódios da suposta interferência, entre eles o impedimento de impulsionar conteúdos no Instagram e a interrupção na contagem de visualizações, e anunciou que vai acionar a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) sob a alegação de “fortes suspeitas de tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro em benefício da candidatura de Flávio Bolsonaro”.
A disputa em torno de conteúdo sintético corre nas duas direções nesta reta final: o tribunal já havia determinado que Flávio apagasse publicações feitas com IA que ligavam Lula a facções criminosas, dois dias antes.