Meio ambiente

Fogo no Amazonas se concentra em imóveis rurais privados mesmo com proibição em vigor

Após o 1º turno, 19 municípios somaram 5.598 focos em 11 dias, 37 vezes mais que em 2025; Ibama aplicou R$ 2 milhões em multas
Vista aérea da floresta amazônica com agentes do Ibama em fiscalização dos focos de fogo no Amazonas

Quase oito em cada dez focos de fogo detectados no Amazonas entre 1º e 15 de outubro estavam em imóveis rurais privados inscritos no CAR (Cadastro Ambiental Rural). O dado vem de levantamento do Inpe feito a pedido do g1 e divulgado nesta quarta-feira (21).

Dos 1.639 focos contabilizados no estado no período, 79,1% atingiram propriedades privadas. O uso do fogo está proibido no Amazonas desde 9 de setembro.

Segundo o Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), a escalada ganhou força a partir de 4 de outubro, dia do 1º turno das eleições.

Alta de 37 vezes em relação a 2025

Entre 4 e 14 de outubro, 19 municípios das regiões metropolitana e central do Amazonas registraram 5.598 focos de fogo, de acordo com o Ipam. No mesmo intervalo de 2025 foram 149, o que deixa o volume deste ano cerca de 37 vezes maior.

O número também supera o de 2023, quando as mesmas localidades somaram 4.385 focos no período. No acumulado de janeiro a 14 de outubro, foram 15.674 registros, 109,4% acima da média histórica.

O ritmo acelerou na virada do mês. Setembro terminou com 6.861 focos, e só os primeiros 14 dias de outubro já somaram 6.183.

A escalada já aparecia em 10 de outubro, quando o Amazonas somou 540 focos em 48 horas e o Ministério do Meio Ambiente passou a tratar as queimadas como ação humana intencional.

Onde o fogo está queimando

O recorte do Inpe mostra que 52,8% dos focos de outubro ocorreram em áreas desmatadas nos últimos três anos. Outros 30,6% estavam em áreas abertas há mais tempo, e 15,9% atingiram vegetação nativa.

Os levantamentos do Ipam e do Inpe usam recortes geográficos e períodos diferentes, por isso os totais não coincidem.

Ibama aplica R$ 2 milhões em multas

Segundo o Ibama, operações de fiscalização iniciadas em 12 de outubro em Autazes e Careiro da Várzea resultaram em 19 pessoas autuadas, R$ 2 milhões em multas e mais de 250 hectares embargados.

As equipes também relataram casos de pessoas que lançavam recipientes com combustível às margens de rodovias. Dias antes, o Ibama já havia apontado indícios de uso criminoso do fogo no estado para abrir pasto e ampliar o desmatamento ilegal. Autazes concentrava o maior número de focos.

O presidente do órgão, Jair Schmitt, afirmou que os agentes identificaram uma sensação de impunidade durante o período eleitoral. Ele levantou a hipótese de que parte dos responsáveis estaria aproveitando o momento político para intensificar o caos, mas ressaltou que as causas do aumento precisam ser investigadas.

Seca agrava o risco

No Amazonas, o uso do fogo para manejo do solo depende de autorização do órgão estadual competente e está proibido desde 9 de setembro. A estiagem associada ao El Niño deixa a vegetação mais seca e facilita a propagação das chamas. Assim, o fogo que começa em propriedades rurais pode chegar a áreas protegidas, inclusive a territórios indígenas.