O Ibama identificou indícios de que o fogo está sendo usado de forma criminosa no Amazonas para ampliar o desmatamento ilegal e abrir novas áreas de pastagem, segundo reportagem de Nicoly Ambrosio, da Amazônia Real, publicada nesta quarta-feira (14).
Os incêndios ameaçam a floresta e agravam a poluição do ar em Manaus e nos municípios da região metropolitana.
Autazes lidera os focos no estado
A região de Autazes é a que concentra o maior número de focos de incêndio no Amazonas. Imagens feitas ali em 11 de outubro pelo fotógrafo Rogério Cassimiro, do Ministério do Meio Ambiente, registram as queimadas na área.
A constatação do Ibama muda a leitura sobre o fogo no estado. Ele deixa de ser tratado como acidente e passa a ser visto como ferramenta para transformar floresta em pasto, a serviço do desmatamento ilegal.
O diagnóstico confirma o que o governo federal já vinha dizendo. Dois dias antes, o ministro do Meio Ambiente afirmou, após sobrevoar a região, que o fogo era resultado de ação humana intencional. No mesmo dia, o Amazonas somou 540 focos em 48 horas.
Na quarta-feira (14), o ministro João Paulo Capobianco foi além e disse, em entrevista à AFP, que o governo investiga uma "ação criminosa deliberada" por trás da disparada dos incêndios. Segundo ele, os responsáveis agem "aparentemente de forma organizada e muito intensa" para degradar áreas de floresta preservada e tomar posse ilegal de terras, o que, na avaliação do ministro, afasta a hipótese de queimadas agrícolas que fugiram do controle.
Capobianco também afirmou haver "possibilidade de conexão direta com o período eleitoral", em referência ao segundo turno das eleições presidenciais, mas ressaltou que, por ora, isso é apenas uma linha de investigação. Ele disse que viajaria a Manaus na quarta-feira com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, e com investigadores da Polícia Federal e agentes da Abin para identificar os responsáveis. A Polícia do Amazonas também apura os incêndios.
Padrão já observado
O uso do fogo como etapa do desmatamento não é novidade. Em 2025, dados do Deter já mostravam criminosos usando o fogo diretamente para liberar áreas, e não apenas depois do corte raso da vegetação.
Fumaça chega às cidades
O impacto das queimadas vai além das áreas atingidas pelo fogo. A fumaça agrava a poluição do ar em Manaus e na região metropolitana e leva o problema ambiental para o cotidiano de quem vive longe dos focos. A prefeitura de Manaus fechou as escolas públicas desde a sexta-feira (9).
Dados do Inpe citados na entrevista mostram 1.608 focos no Amazonas desde o início de outubro, contra 874 em todo o mês de outubro de 2025. Em setembro, o estado registrou mais de 3.700 focos, quase o quádruplo do ano anterior. O cenário se agrava com o El Niño, que eleva temperaturas e provoca secas na região.
Para o combate ao fogo, o governo federal enviou 11 aeronaves e cerca de 300 brigadistas e, segundo Capobianco, espera reverter a situação "nos próximos dias".
O risco, porém, não se distribui de forma igual. Um levantamento da Fiocruz cruzou focos de incêndio e aldeias para mostrar quem está mais exposto à fumaça no estado, o que evidencia desigualdades de saúde associadas às queimadas.
Ao apontar indícios de uso criminoso do fogo, o Ibama coloca as queimadas na cadeia do desmatamento ilegal, e não apenas no campo das emergências ambientais. A conexão entre os incêndios e a abertura de pastagens direciona a atenção para a fiscalização das áreas queimadas e para o uso que é dado a elas depois do fogo.