Meio ambiente

Lula envia 290 profissionais e seis aeronaves para combater incêndios no Amazonas

Operação que chegou a Manaus é ampliada com aviões da FAB e reforço de SP, enquanto MIDR reconhece emergência em 36 municípios do Amazonas.
Fumaça cobre floresta do Amazonas enquanto segue a ajuda federal incêndios no Amazonas

O governo federal mobilizou 290 profissionais, seis aeronaves e equipamentos para o combate aos incêndios no Amazonas, com chegada prevista ao Estado ainda neste sábado (10).

O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em vídeo publicado no X, após conversa com o governador Roberto Cidade (União Brasil).

Neste domingo (11), a operação foi ampliada: os dois aviões KC-390 da Força Aérea Brasileira (FAB), equipados com o sistema Maffs (Sistema Modular Aerotransportado de Combate a Incêndios), capaz de lançar até 12 mil litros de água por aeronave, chegaram a Manaus para se juntar às aeronaves já enviadas ao Estado, elevando para 11 o total de aeronaves da força-tarefa federal, com início das atividades previsto para esta segunda-feira (12). O Amazonas também passou a contar com reforço do governo de São Paulo, que enviou uma equipe de 30 profissionais — 25 bombeiros militares e cinco integrantes da Defesa Civil —, com embarque realizado às 13h de domingo (11), no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP).

Fumaça encobre Manaus pelo terceiro dia

A chegada das equipes ocorre enquanto a capital amazonense segue sob uma camada de fumaça. Na manhã deste sábado, sensores registraram concentrações de material particulado fino (MP2,5) entre 50 e 125 µg/m³ em 24 horas, de acordo com a Defesa Civil.

A medição coloca o ar de Manaus nas faixas classificadas como “ruim” e “muito ruim”. Pelo alerta, a exposição pode afetar a saúde da população em geral, com risco mais grave para grupos sensíveis.

Em entrevista coletiva neste domingo (11), o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, apresentou dados mais detalhados sobre a piora do ar: segundo boletim técnico da Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil Municipal (Sepdec), a concentração de MP2,5 chegou a 196,4 µg/m³ às 6h de sábado (10), nível classificado como “péssimo” e igual ao da sexta-feira (9), antes de recuar para 46,4 µg/m³, faixa moderada, no início da noite. A previsão é de nova piora, com concentração estimada em 169 µg/m³ na madrugada desta segunda-feira (12). Diante do risco, a Prefeitura de Manaus suspendeu os eventos ao ar livre programados para este domingo e a segunda-feira, entre eles a programação do Parque Cidade da Criança, atividades na Orla da Glória e no Parque Gigantes da Floresta e a Feirinha do Boi Manaus, prevista para o Sambódromo e a Avenida do Samba.

O agravamento da fumaça acompanha o avanço dos incêndios no Estado: dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), mostram que o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio entre 1º e 10 de outubro, alta de 271% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram 372 registros. A maior parte dos focos, 1.186, ocorreu em áreas públicas, e 174 foram classificados como relacionados a desmatamento.

Outro levantamento, o Painel do Clima, mantido pelo governo do Amazonas, aponta um total ainda maior: 6.901 focos de queimada entre 1º e 11 de outubro, alta de 91,38% em relação ao mesmo período do ano passado. As regiões mais afetadas são o sul do Estado, com 3.485 ocorrências, e a região metropolitana de Manaus, com 1.655.

O governador Roberto Cidade afirmou que a fumaça que encobre parte do Amazonas não é provocada apenas pelos incêndios registrados dentro do Estado, mas também por queimadas em outras unidades da Federação. A declaração foi dada após reunião emergencial na sede da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), que reuniu representantes dos governos federal e estadual para coordenar o enfrentamento às queimadas e reduzir os impactos da fumaça sobre a população.

Nessa mesma linha de apoio entre estados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), publicou neste domingo (11) um vídeo nas redes sociais gravado dentro da aeronave que levava a equipe paulista ao Amazonas. Segundo o governo de São Paulo, o reforço inclui, além dos profissionais, 11 mil litros de retardante de incêndio, drones e cisternas. Na gravação, o piloto saudou o grupo como heróis e desejou sucesso na missão. “O Amazonas pode contar com São Paulo”, escreveu Tarcísio, que classificou o envio como parte de um esforço conjunto para proteger vidas e preservar o meio ambiente.

Ibama contabiliza 236 focos extintos

O Ministério do Meio Ambiente informou que o Ibama extinguiu 229 focos de incêndio no Amazonas até sábado (10) e continuava atuando em outros 20. Em balanço atualizado no domingo (11), a pasta elevou o total para 236 incêndios extintos desde o início da temporada, com outros 22 ainda em combate. Na mesma atualização, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou que 250 brigadistas federais atuavam em campo, com outros 40 profissionais em deslocamento para reforçar as equipes. O reforço aéreo anunciado inclui quatro aviões Air Tractor e dois helicópteros de apoio logístico, coordenados pelo Ciman Federal.

O ministério também informou ter orientado o governo do Amazonas sobre os procedimentos para solicitar recursos pelo Sinpdec (Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil), mecanismo usado para ampliar a capacidade de resposta a emergências. Ainda neste sábado (10), o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) reconheceu, em caráter sumário, a situação de emergência decretada pelo governador Cidade em 36 municípios do Estado — etapa necessária para viabilizar a liberação de recursos federais. O ministro da Integração, Waldez Góes, chegou ao Amazonas no mesmo dia para acompanhar a mobilização da força-tarefa. “Não vai faltar nada: equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado”, afirmou Góes, que também disse que o governo federal já vinha negociando com o Estado para acelerar a decretação da emergência e o pedido de reconhecimento nacional.

Em entrevista coletiva neste domingo (11), Góes detalhou a força-tarefa federal, que reúne o MIDR, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Defesa Civil Nacional, a Força Nacional do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ministério de Minas e Energia e as Forças Armadas. Segundo o ministro, a Força Nacional do SUS foi deslocada para reforçar o atendimento à população afetada pela fumaça, enquanto o Ministério de Minas e Energia atua para garantir o abastecimento de combustível em comunidades isoladas. Góes afirmou ainda que o governo federal promoveu, mais de 30 dias antes, oficinas de preparação com autoridades estaduais e municipais sobre os efeitos do El Niño e os riscos de estiagem e incêndios florestais.

O ministro reforçou que a decretação de emergência pelo Amazonas foi o que permitiu a atuação federal: segundo ele, o reconhecimento sumário da medida pela União, publicado no mesmo dia no Diário Oficial da União, deu “legitimidade e legalidade” para que os órgãos federais empregassem recursos humanos, financeiros e materiais nos municípios atingidos. Góes também respondeu a declarações do comandante do Corpo de Bombeiros do Amazonas, que, em entrevista a uma emissora de televisão, afirmou que o governo federal estaria negando ajuda ao Estado. Para o ministro, a atuação direta da União dependia da formalização da emergência pelo governo estadual — o que, segundo ele, ocorreu e foi reconhecido no mesmo dia. “Seria prudente que o comandante do Corpo de Bombeiros, em vez de tocar fogo, apagasse fogo, se juntasse aos brigadistas e às equipes da Defesa Civil Nacional, das Defesas Civis Municipais e Estadual”, declarou.

Entre as iniciativas de prevenção em curso está o ProAmazon, projeto financiado com R$ 45 milhões do Fundo Amazônia para reforçar a estrutura do Corpo de Bombeiros Militar no combate aos incêndios florestais. Desse total, R$ 34,7 milhões já foram liberados ao Estado, e cerca de R$ 10 milhões permanecem disponíveis para uso, segundo o MIDR. Nos últimos três anos, o Amazonas recebeu R$ 372 milhões em recursos federais para ações de socorro, assistência humanitária e reconstrução após desastres, de acordo com registros do ministério.

A mobilização atual tem precedente em setembro, quando, a pedido do governo amazonense, o Ciman Federal acionou combatentes do Respad (Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres) e um avião do Pegasus (Projeto de Gerenciamento de Aeronaves para Situações de Urgência e Socorro). Dias depois, a operação foi revista: as chuvas ajudaram a reduzir os focos de incêndio e o governo estadual informou que o deslocamento da equipe do Respad não seria necessário.

Crise já havia fechado escolas na capital

Não é o primeiro efeito direto do fogo sobre a rotina da cidade. A gravidade da situação já havia levado Manaus a suspender as aulas da rede municipal, depois de o Amazonas registrar 3.726 focos de calor em setembro — quase quatro vezes mais que no mesmo mês de 2025.

No vídeo, Lula disse ter avisado Cidade de que a força-tarefa desembarcaria no Estado no próprio sábado. “O povo do Amazonas pode contar com o governo federal. Estamos juntos nessa luta para proteger vidas, preservar a floresta e apoiar quem está enfrentando essa emergência”, escreveu o presidente.

O envio recoloca o Amazonas no centro da agenda ambiental do Palácio do Planalto, com a fumaça das queimadas interrompendo serviços e pressionando a saúde pública na maior cidade da Amazônia.

Neste domingo (11), o sobrevoo que o ministro Waldez Góes faria de helicóptero sobre as áreas atingidas pelos incêndios precisou ser cancelado por causa de condições meteorológicas desfavoráveis, que comprometiam a visibilidade necessária para o voo. O ministro manteve, porém, a entrevista coletiva para detalhar as ações em andamento da força-tarefa federal.