Dos 28 parlamentares que assinaram propostas contra unidades de conservação (UCs) e disputaram novo mandato em 2026, 20 foram eleitos para a Câmara ou o Senado. Onze deles são do PL, partido com a maior bancada nas duas Casas.
O cruzamento foi feito em reportagem de Duda Menegassi no ((o))eco, com base em levantamento da Rede Pró-UC que mapeou 46 projetos anti-UCs no Congresso Nacional. Cinco deles já foram retirados pelos próprios autores.
O resultado mantém sob ameaça áreas recém-criadas, como o Parque Nacional Marinho de Albardão, no Rio Grande do Sul, e as regras que orientam a criação de novas reservas no país.
Quatro autores chegam ao Senado
José Medeiros (PL-MT), eleito senador com mais de 970 mil votos, assina três propostas. O PL 5028/2023 impede restrições ao uso de imóveis dentro de UCs e Terras Indígenas antes da indenização integral; o PL 827/2023 invalida unidades que não desapropriarem áreas privadas em dez anos; e o PL 5031/2023 abre espaço para rodovias, ferrovias e linhões em áreas de proteção integral.
Pela regra dos dez anos, até o Parque Nacional do Itatiaia, o mais antigo do país, criado em 1937 e ainda sem regularização fundiária concluída, poderia deixar de existir.
Nicoletti (PL-RR), eleito com quase 140 mil votos, quer derrubar a criação da Floresta Nacional do Parima e as ampliações da Estação Ecológica de Maracá e do Parque Nacional do Viruá. Juntas, as medidas retirariam a proteção de mais de 200 mil hectares da Amazônia em Roraima. Também vão ao Senado Sanderson (PL-RS) e Dr. Fernando Máximo (PL-RO), autores de projetos contra Albardão e contra o Parque Nacional Povos Indígenas do Rio Tanaru, respectivamente.
Unidades recém-criadas na mira
Criado em março pelo presidente Lula, o Parque Nacional Marinho de Albardão, com 1 milhão de hectares, é o maior parque marinho do país. Das cinco propostas para anulá-lo, quatro são de eleitos: Alceu Moreira (MDB-RS), Sanderson, Julia Zanatta (PL-SC) e Pompeo de Mattos (PDT-RS). Sanderson ainda tenta barrar estudos para novas UCs no Pampa, bioma com cerca de 3% do território coberto por áreas protegidas.
No Pantanal, Coronel Fernanda (PL-MT) aprovou regime de urgência para sustar a ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, o que leva o tema direto ao plenário. Em Santa Catarina, o PL 849/2025, de Geovania de Sá (Republicanos-SC), também em urgência, exclui toda a porção terrestre da APA da Baleia Franca. Pesquisadores alertam para o risco de especulação imobiliária e para os impactos sobre comunidades tradicionais.
Regras do SNUC também estão em jogo
Parte das propostas mira o sistema inteiro. Reeleito com 414 mil votos, Delegado Caveira (PL-PA) é autor do PL 5131/2026, que proíbe criar ou ampliar UCs por decreto e suspende restrições de uso se o plano de manejo não for aprovado em cinco anos. Aliado de primeira hora de Flávio Bolsonaro, ele fez campanha no Pará ao lado do candidato do PL à Presidência, que prometeu acabar com os “entraves ambientais”.
Zé Trovão (PL-SC) condiciona novas unidades à existência de orçamento para indenizações e veta UCs em áreas com minerais estratégicos. Junio Amaral (PL-MG) quer devolver parques nacionais ao Programa Nacional de Desestatização.
O saldo confirma o que um levantamento divulgado antes do pleito já indicava, quando 28 dos 31 autores disputavam novo mandato. Oito não se reelegeram e três não concorreram, mas seus projetos seguem tramitando num Congresso em que o PL se tornou a maior bancada e 68,9% dos parlamentares têm baixa convergência com a agenda ambiental.