Meio ambiente

Extrema direita faz maioria no Congresso e mira a agenda ambiental

PL salta para 121 deputados e 28 senadores, e as 70 propostas contra a proteção ambiental ganham caminho mais curto
Senado Federal e Congresso Nacional simbolizam o novo Congresso e sua agenda ambiental em risco

A eleição legislativa de domingo (4) redesenhou o Congresso Nacional em favor da extrema direita e empurrou a legislação ambiental para o centro das disputas dos próximos quatro anos. Para quem acompanha o tema, o cenário é o pior possível.

O novo Congresso assume com pelo menos 70 propostas nocivas à área ambiental já em tramitação — de unidades de conservação a fiscalização, terras indígenas e regras para a agropecuária — e com força de sobra para derrubar vetos presidenciais.

PL quase dobra no Senado e lidera os projetos contra áreas protegidas

Na Câmara, o Partido Liberal (PL), legenda do presidenciável Flávio Bolsonaro, passou de 98 para 121 deputados e virou a maior bancada da Casa. No Senado, o avanço foi ainda mais acentuado: de 15 para 28 parlamentares.

O crescimento favorece justamente o partido que mais assina propostas de retrocesso ambiental. Levantamento da Rede Pró-UC mapeou 46 projetos que ameaçam ou podem impactar unidades de conservação no país: 27 deles partiram de 13 deputados do PL, que estão entre os 31 autores identificados. MDB, Republicanos e União aparecem na sequência, com três parlamentares cada.

Dias antes do pleito, o mesmo levantamento já mostrava que 28 dos 31 autores dessas propostas buscavam a reeleição — e a maioria voltou eleita, o que mantém intacta a autoria do pacote antiambiental na nova legislatura.

O perfil do Congresso que se forma vinha sendo medido também por outros indicadores. Um levantamento apontou R$ 120 milhões em multas ambientais pendentes entre os candidatos de 2026, parte deles agora com mandato.

Minoria ambientalista terá de segurar a pauta

Em entrevista ao ((o))eco, Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama, avalia que a correlação de forças piorou de forma relevante. “A composição do Senado ficou marcadamente antiambiental. Na Câmara ainda poderemos contar com mais nomes em defesa das questões ambientais”, diz.

Para ela, o grupo minoritário de parlamentares dedicados ao assunto e as organizações que acompanham o dia a dia do Congresso “terão muito trabalho pela frente”. Araújo lembra que a legislação ambiental “costuma ser encarada como um entrave a ser afastado por partidos de direita e extrema direita”, em posições que vão do negacionismo climático explícito, com recusa de fatos científicos sobre o aquecimento global, a versões mais brandas, que minimizam o papel do poder público na proteção socioambiental.

O risco não é hipotético: a Câmara aprovou em maio, em regime de urgência, um pacote que fragiliza a fiscalização ambiental, hoje à espera de desfecho no Senado e de eventual sanção ou veto. E mesmo uma vitória de Lula no segundo turno não blinda a pauta: com a nova aritmética parlamentar, derrubar veto presidencial fica mais fácil.