Um levantamento do Ipam, encomendado pelo Observatório do Clima, revela que as unidades de conservação terrestres do Brasil armazenam 19,4 gigatoneladas de carbono, volume equivalente a 33 anos de emissões brasileiras de gases de efeito estufa no ritmo atual.
O resultado, divulgado nesta semana, contrasta com o avanço de propostas no Congresso Nacional que reduzem, reclassificam ou extinguem unidades de conservação pelo país, colocando esse patrimônio ambiental em risco.
Congresso ameaça áreas que funcionam como escudo climático
A análise de Paulo Moutinho, pesquisador sênior do Ipam, levou em conta o recente rebaixamento de 40% da área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, transformada em Área de Proteção Ambiental. Outras propostas em tramitação no Legislativo encolhem, eliminam ou mudam a categoria de unidades como a APA da Baleia Franca (SC), a Estação Ecológica de Taiamã (MT) e o Parque Nacional de Albardão (RS).
“Os projetos em tramitação ameaçam um patrimônio ambiental de todos os brasileiros e o equilíbrio climático mundial”, afirma Moutinho. “Os parlamentares que apoiam esses projetos podem transformar o Congresso na principal fonte de emissões de gases de efeito estufa do país”, completa.
Flona do Jamanxim perdeu 16,5% do estoque de carbono
A Flona do Jamanxim já figura entre as dez unidades de conservação que mais emitiram carbono no país. Criada em 2006 com um estoque estimado em 184 milhões de toneladas de carbono, a área caiu para cerca de 153 milhões de toneladas em 2025 — perda de 16,54%. Uma nota técnica de organizações ligadas ao Observatório do Clima aponta que 86,6 mil hectares foram desmatados e ocupados ilegalmente na unidade desde sua criação, sendo mais de 36 mil hectares somente entre 2018 e 2025.
Os números colocam o Jamanxim na terceira posição entre as UCs federais que mais perderam estoque de carbono e na 10ª posição no ranking geral entre todas as áreas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC).
Estudos anteriores de Moutinho e outros pesquisadores já indicavam que as principais categorias de unidades de conservação da Amazônia funcionam como barreira contra o desmatamento: entre a criação das áreas avaliadas e 2022, a perda de vegetação nativa dentro delas foi de cerca de 6,5%, contra ao menos 30% fora de seus limites.
Para o pesquisador, qualquer enfraquecimento da proteção legal tem efeito imediato sobre o clima. “Qualquer mudança que reduza a proteção resulta, no dia seguinte, em emissões decorrentes de desmatamento e de fogo, especialmente em anos de El Niño”, alerta. O alerta do Ipam ganha peso diante de um cenário recente de avanço: a Amazônia registrou a menor área queimada em 41 anos em 2025 — resultado que pesquisadores advertem poder ser revertido caso a proteção legal das unidades seja enfraquecida pelo Legislativo.
Moutinho faz um apelo a candidatos das eleições deste ano e a parlamentares em exercício: enfraquecer o SNUC produz efeitos que vão além das regiões diretamente afetadas. A pesquisa foi encomendada pelo Observatório do Clima, que na semana passada lançou um documento com propostas de governança climática para as eleições de 2026, alertando justamente para os riscos de um Congresso sem compromisso ambiental.