Meio ambiente

ONU pede dinheiro antes do desastre diante de El Niño que pode bater recorde histórico

Pacífico pode ficar até 3,8°C acima da média entre novembro e janeiro, e a América Latina está entre as regiões mais expostas
Mapa térmico do Pacífico com anomalias em vermelho e emblema da ONU ilustram El Niño recorde alerta ONU

A ONU pediu nesta quarta-feira (21), em Genebra, que governos, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras internacionais liberem recursos antes de o El Niño provocar desastres. O fenômeno pode atingir intensidade recorde entre o fim de 2026 e o início de 2027.

O apelo foi feito em conjunto pela secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, e pelo chefe das operações humanitárias da ONU, Tom Fletcher. O objetivo é proteger populações vulneráveis de secas, enchentes, ondas de calor e perdas agrícolas.

“Não podemos impedir o El Niño, mas podemos evitar muitas de suas consequências humanas mais graves”, disse Saulo.

Pacífico pode superar o episódio de 2015-2016

Segundo a atualização climática sazonal mais recente da OMM, a superfície do Pacífico equatorial pode registrar anomalias de até 3,8°C acima da média entre novembro e janeiro. Se a projeção se confirmar, o episódio atual vai superar o El Niño de 2015-2016, até agora uma das principais referências históricas de evento extremo.

As temperaturas da superfície do oceano no Pacífico tropical podem alcançar níveis nunca observados desde o início das medições modernas. Duas semanas antes, a OMM já havia projetado que o episódio deveria superar o recorde de 2015-2016, com anomalia de cerca de 3,7°C no fim do ano.

A agência estima que a chance de o El Niño persistir pelo menos até fevereiro de 2027 é próxima de 100%. As previsões resultam de consensos entre centros meteorológicos nacionais e internacionais, com base em dados de satélites, boias oceânicas e observações atmosféricas.

Aquecimento global amplifica o fenômeno

O El Niño é um aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial que altera a circulação atmosférica e muda os padrões de chuva e temperatura no planeta. Por isso, algumas regiões enfrentam secas prolongadas e outras ficam mais sujeitas a chuvas intensas e inundações.

De acordo com a OMM, o fenômeno agora se forma num cenário de aquecimento global e de oceanos com temperaturas recordes. O calor acumulado no mar cria condições para que seus efeitos sejam ainda mais intensos.

Financiar antes, não depois

Fletcher pediu que o dinheiro chegue antes das crises. “Pedimos aos países, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras internacionais para liberar financiamentos com esse objetivo antes que os danos ocorram, e não depois”, afirmou.

A estratégia, chamada de ação antecipada, usa as previsões meteorológicas para liberar recursos antes dos desastres. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), o modelo permite proteger plantações, reservas de água, rebanhos e meios de subsistência, com custo menor do que o das operações emergenciais.

América Latina entre as regiões mais vulneráveis

A ONU inclui áreas da América Latina, do leste e do sul da África e partes da Ásia e do Pacífico entre as mais expostas. Muitas dessas comunidades já convivem com insegurança alimentar, deslocamentos e fragilidade econômica.

Na região, relatórios da OMM associam o episódio de 2023-2024 a secas severas, perdas agrícolas, ondas de calor e falta de água. Em julho, Fletcher já havia advertido que o novo El Niño poderia ser mais grave que aquele, que deixou dezenas de milhões de pessoas dependentes de ajuda.

Os países andinos discutem uma resposta conjunta no Comitê Andino para a Prevenção e Alerta de Desastres (CAPRADE), da Comunidade Andina, com atenção especial às zonas de fronteira. No Brasil, o alerta reacende o debate sobre a falta de uma política permanente de adaptação a eventos extremos, já apontada em junho.

Comida e saúde no radar

Em junho, a FAO e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) lançaram um apelo para financiar medidas preventivas para quase nove milhões de pessoas em 22 países. Entre as ações estão transferências de renda, sementes resistentes a seca ou a enchentes, armazenamento de água e proteção de rebanhos.

Em setembro, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou uma análise dos riscos sanitários do El Niño de 2026 e recomendou preparar os sistemas de saúde e monitorar as populações mais expostas.