Modelos climáticos de diferentes centros ao redor do mundo convergem para a formação de um El Niño ainda em 2026. O NOAA CPC projeta mais de 90% de chance de algum nível do fenômeno até o fim do ano, com início provável entre maio e julho.
A intensidade, porém, ainda é uma incógnita — e enquanto manchetes já falam em “super” El Niño, os cientistas que estudam o fenômeno são os primeiros a pedir cautela nas previsões.
O que os números dizem — e o que ainda escondem
Para o trimestre de outubro a dezembro, os modelos apontam maior probabilidade de um El Niño moderado (27%), mas indicam também 20% de chance de um evento forte e 13% de muito forte — cenários em que o aquecimento das águas do Pacífico ultrapassa 2°C acima do normal por vários meses.
O Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) reforça essa ambiguidade. Em análise publicada na última semana, a instituição destacou que os valores previstos para setembro variam entre 1,7°C e 3,3°C. “Esta é uma variação substancial, e um valor mais preciso não pode ser fornecido de forma confiável”, afirmou o meteorologista Tim Stockdale.
Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e diretor substituto do Cemaden, explica que o cenário mais plausível no momento ainda é o de um El Niño moderado, com início a partir de setembro. “O que temos observado é que as chances de um El Niño forte têm aumentado conforme passam as semanas e são feitas novas simulações”, diz ele — mas ressalta que cravar a intensidade exata ainda não é possível.
A barreira do outono e o sistema caótico
Há um motivo técnico para tanta cautela neste momento do ano. Os meteorologistas chamam de “barreira de previsibilidade do outono” o período entre março e junho em que as condições do Pacífico tropical são naturalmente menos previsíveis. “A atmosfera é um sistema caótico. Pequenas perturbações hoje podem levar a cenários completamente distintos daqui a alguns meses”, alerta Camarinha.
A clareza das projeções tende a aumentar entre maio e junho, quando os ventos alísios começam a enfraquecer — permitindo que águas mais quentes avancem pelo oceano e os modelos indiquem com mais segurança o que vem depois. Karina Bruno Lima, doutora em climatologia e pesquisadora na Universidade Erlangen-Nuremberg, acrescenta outro fator de complexidade: “É um clima em transformação. Temos um cenário sem precedentes. É preciso ter cautela neste momento.”
O que esperar para o Brasil
Historicamente, o El Niño está associado a chuvas mais volumosas no Sul do país. A partir do segundo semestre — especialmente entre setembro e outubro — aumenta a chance de eventos de chuva intensa na região. Áreas do Norte e do Nordeste, por outro lado, podem enfrentar períodos mais secos.
Karina Lima reforça que o fenômeno coloca o Brasil em estado de atenção: “Um El Niño com certeza nos coloca sob alerta, pois aumenta as chances de determinados eventos extremos. Mas a magnitude dos impactos depende da intensidade do fenômeno, de sua configuração no oceano e de outras condições do cenário climático.”
Especialistas lembram que o risco de desastres naturais não depende apenas do El Niño, mas também das vulnerabilidades locais — como a forma de ocupação do território e a atuação da defesa civil. Uma combinação de fatores atmosféricos e sociais é necessária para que uma situação mais grave se configure.
Há menos de uma semana, a NOAA havia declarado oficialmente o fim da La Niña e apontado 60% de chance de El Niño se formar entre maio e julho — o ponto de partida para as projeções que os especialistas agora tentam detalhar com mais precisão. Leia a cobertura completa do anúncio da NOAA.
A incerteza nas previsões se torna ainda maior quando se considera que os oceanos já estão mais quentes do que em qualquer época da história. A OMM apontou 2025 entre os anos mais quentes já registrados, elevando a linha de base sobre a qual o El Niño atuaria. O ECMWF observa que o sinal oceânico de 2026 é mais consistente do que o de 2023 — mas lembra: em 2017, os modelos indicavam aquecimento e o que se desenvolveu foi La Niña.
